Ser Inteira
Quando o olhar do outro nos devolve algo partido, incompleto, atravessado por suas próprias faltas, é nesse desencontro que nasce a experiência de sermos sujeitos: nunca inteiros no espelho, sempre fragmentados diante daquilo que esperam de nós.
Ser inteira, então, não é se completar na medida do desejo do outro. É habitar a própria incompletude sem tentar forçá-la a caber em moldes alheios. É suportar o desconforto de não ser exatamente o que esperam, e ainda assim se reconhecer como existente, legítima, viva.
Há uma liberdade que só aparece quando paramos de perseguir o encaixe perfeito.
É quando aceitamos que nunca seremos totalmente correspondidos que podemos, enfim, existir de forma mais autêntica.
Ser inteira não é corresponder.
É sustentar-se no intervalo entre o que se espera de mim e aquilo que insiste em ser, apesar de tudo.
