Identificar e libertar-se das crenças irracionais na Terapia Racional Emotiva Comportamental
Na Terapia Racional Emotiva Comportamental (TREC), desenvolvida por Albert Ellis, uma ideia ocupa um lugar central: não são apenas os acontecimentos que determinam aquilo que sentimos, mas sobretudo a interpretação que fazemos desses acontecimentos.
Duas pessoas podem atravessar uma situação semelhante e reagir emocionalmente de maneiras completamente diferentes. A diferença encontra-se, muitas vezes, nas crenças através das quais cada uma interpreta o que aconteceu.
Ellis chamou a atenção para um tipo particular de pensamento: as crenças irracionais. Não são necessariamente pensamentos absurdos ou completamente desligados da realidade. São sobretudo crenças rígidas, absolutistas e exigentes, que transformam desejos legítimos em necessidades psicológicas imperativas.
Há uma diferença enorme entre pensar:
“Gostaria muito que as pessoas gostassem de mim.”
e pensar:
“Preciso que as pessoas gostem de mim. Se alguém não gostar de mim, há alguma coisa errada comigo.”
No primeiro caso existe uma preferência. No segundo, uma exigência.
É precisamente esta passagem do “gostaria” para o “tenho de”, do “preferia” para o “é absolutamente necessário”, que está no centro de grande parte do trabalho da TREC.
Algumas crenças irracionais frequentes
Podemos encontrá-las em pensamentos como:
- “Preciso de me sair bem e da aprovação das pessoas importantes para mim; caso contrário, significa que não tenho valor.”
- “As pessoas devem tratar-me sempre com justiça e consideração. Quando não o fazem, são pessoas horríveis.”
- “A minha vida deveria ser fácil e agradável. Não deveria ter de passar por tantas dificuldades.”
- “O meu passado determinou aquilo que sou e, por isso, continuarei sempre a sentir-me desta maneira.”
- “Cometi um erro terrível. Não consigo perdoar-me.”
- “Não suporto esta situação. Isto tem de acabar imediatamente.”
- “Falhei, portanto sou um fracasso.”
O problema não reside apenas no conteúdo destes pensamentos. Reside na sua rigidez.
A pessoa deixa de dizer “isto é muito difícil” e passa a dizer “isto é insuportável”. Deixa de pensar “falhei nesta situação” e conclui “sou um fracasso”. Deixa de desejar ser respeitada e passa a acreditar que “os outros têm obrigatoriamente de me respeitar”.
A TREC procura desmontar precisamente estas transformações.
O debate socrático: aprender a interrogar aquilo em que acreditamos
Uma das ferramentas fundamentais é o questionamento ou debate socrático.
O terapeuta não se limita a dizer ao paciente que está enganado. Ajuda-o a examinar criticamente aquilo em que acredita:
- Que provas existem para esta conclusão?
- Onde está escrito que isto tinha obrigatoriamente de acontecer como eu desejava?
- Uma coisa ser muito desagradável significa que é verdadeiramente insuportável?
- O facto de eu ter falhado permite concluir que sou um fracasso enquanto pessoa?
- Uma pessoa comportar-se mal comigo significa que essa pessoa é inteiramente má?
- Estou a descrever a realidade ou a fazer uma exigência à realidade?
A finalidade não é substituir pensamentos negativos por pensamentos artificialmente positivos. Trata-se de construir um pensamento mais flexível, realista e funcional.
Não é:
“Vai correr tudo maravilhosamente.”
É antes:
“Gostaria que corresse bem, mas admito que possa correr mal. Se correr mal, será desagradável, mas poderei lidar com isso.”
Esta diferença é fundamental.
Humor e criatividade
Ellis utilizava também o humor como instrumento terapêutico. Algumas das nossas crenças revelam melhor o seu carácter absolutista quando são levadas às últimas consequências.
Imaginemos alguém que pensa:
“É absolutamente indispensável que toda a gente goste de mim.”
Podemos perguntar: toda a gente? Colegas? Familiares? Vizinhos? Pessoas que conhecemos durante cinco minutos? Pessoas cujos valores desprezamos?
A pergunta não pretende ridicularizar o sofrimento. Pretende criar distância psicológica em relação à crença.
Histórias, metáforas, exageros deliberados e humor podem ajudar a pessoa a perceber que estava a tratar uma preferência como se fosse uma lei universal.
Das exigências às preferências flexíveis
Uma das transformações mais importantes propostas pela TREC consiste em converter exigências absolutistas em preferências flexíveis.
Em vez de:
“As pessoas têm de me tratar bem.”
podemos construir:
“Quero ser tratado com respeito e procurarei defender-me quando isso não acontecer, mas reconheço que não posso obrigar todas as pessoas a comportarem-se como desejo.”
Isto não significa resignação.
Podemos estabelecer limites, terminar relações, protestar contra injustiças, abandonar situações abusivas ou exigir os nossos direitos. A diferença está em reconhecer que a realidade não possui a obrigação de corresponder aos nossos desejos.
A flexibilidade psicológica permite dizer:
“Isto não deveria acontecer no sentido moral, e farei aquilo que estiver ao meu alcance para o mudar. Mas aconteceu. Agora preciso de decidir o que faço com esta realidade.”
Sair do pensamento “tudo ou nada”
Outro alvo importante é o pensamento dicotómico.
- Bom ou mau.
- Sucesso ou fracasso.
- Forte ou fraco.
- Amado ou rejeitado.
- Competente ou incompetente.
A experiência humana raramente funciona desta maneira.
Uma pessoa pode cometer um erro grave e continuar a possuir inúmeras qualidades. Uma relação pode terminar sem que tenha sido inútil. Podemos fracassar num projecto sem sermos “fracassados”.
A TREC procura separar o comportamento da identidade.
“Eu falhei” descreve um acontecimento.
“Eu sou um fracasso” condena a pessoa inteira a partir desse acontecimento.
É uma diferença pequena na linguagem, mas enorme psicologicamente.
Alta tolerância à frustração
Ellis atribuía grande importância à chamada alta tolerância à frustração.
Não significa gostar de sofrer nem aceitar passivamente condições que podem ser modificadas. Significa desenvolver a capacidade de reconhecer:
“Não gosto disto. É difícil. Gostaria que fosse diferente. Mas consigo suportá-lo enquanto procuro uma solução.”
É muito diferente de:
“Não aguento. Isto tem de acabar já.”
A expressão “não aguento” é particularmente interessante. Na maioria das situações quotidianas em que a utilizamos, estamos precisamente a aguentar aquilo que dizemos ser impossível suportar.
Uma formulação mais rigorosa seria:
“Estou a suportar isto, embora me esteja a custar muito.”
Esta reformulação aparentemente simples devolve alguma capacidade de acção à pessoa.
Aceitação incondicional
Talvez um dos aspectos mais profundos da abordagem de Ellis seja a aceitação incondicional.
Podemos distinguir três dimensões:
- Aceitação de si: posso reconhecer os meus erros, limitações e fracassos sem transformar cada erro num julgamento sobre o meu valor humano.
- Aceitação dos outros: posso condenar determinado comportamento sem reduzir toda uma pessoa àquilo que fez.
- Aceitação da vida: posso desejar profundamente que determinadas coisas fossem diferentes e, simultaneamente, reconhecer que a realidade contém perda, injustiça, frustração, acaso e sofrimento.
Aceitar não significa aprovar.
Também não significa desistir.
Aceitar significa reconhecer aquilo que existe antes de decidir aquilo que queremos transformar.
Há aqui uma distinção particularmente importante. Enquanto a pessoa luta mentalmente contra o facto de algo ter acontecido, pode ficar aprisionada numa batalha impossível contra o passado. Quando reconhece “aconteceu, embora eu desejasse profundamente que não tivesse acontecido”, pode começar uma pergunta diferente:
“E agora, o que posso fazer?”
Da crença irracional à crença racional
Podemos resumir o processo desta forma:
- “Tenho obrigatoriamente de ser aprovado.”
→ “Desejo ser aprovado, mas consigo viver sem a aprovação de todas as pessoas.” - “Não posso falhar.”
→ “Prefiro ter sucesso, mas falhar não determina o meu valor.” - “Isto é insuportável.”
→ “Isto é extremamente difícil, mas posso suportá-lo.” - “Ele não podia ter feito isto comigo.”
→ “Gostaria profundamente que não o tivesse feito, mas fez. Posso agora decidir como responder.” - “Cometi um erro terrível, portanto sou uma pessoa terrível.”
→ “Cometi um erro que devo reconhecer e, se possível, reparar. O meu comportamento pode ser avaliado sem que todo o meu ser seja condenado.”
É aqui que a TREC encontra a sua dimensão libertadora.
O objectivo não é construir uma vida sem frustração, rejeição, erro, conflito ou perda. Essa vida não existe. O objectivo é deixar de acrescentar ao sofrimento inevitável da existência uma segunda camada de sofrimento criada pelas nossas próprias exigências absolutas.
A mudança começa quando o “tem de ser” se transforma em “gostaria que fosse”, quando o “não suporto” se transforma em “é difícil, mas consigo suportar”, e quando o “sou um fracasso” dá lugar a “sou uma pessoa que, como todas as outras, pode falhar”.
Nesse sentido, a ideia apresentada no final da aula é particularmente feliz:
Progredir é renovar atitudes.
Não podemos escolher tudo aquilo que nos acontece. Mas podemos aprender a interrogar as crenças através das quais interpretamos o que nos acontece. E, por vezes, modificar uma crença não modifica o passado nem elimina a dificuldade, mas modifica profundamente a maneira como passamos a viver com ela.
