Kierkegaard e Freud: Entre a Angústia de Ser e a Liberdade de Escolher
Muito antes de Freud colocar o inconsciente no centro da vida psíquica, Søren Kierkegaard (1813–1855) já estava a pensar algumas das questões que mais tarde se tornariam fundamentais para a psicoterapia: angústia, desespero, alienação, liberdade, responsabilidade e, sobretudo, a difícil tarefa de tornar-se si próprio.
Naturalmente, Kierkegaard não era psicanalista. Seria historicamente incorrecto transformar a sua filosofia numa antecipação directa de Freud. Mas existe uma proximidade extraordinariamente fértil entre determinadas perguntas kierkegaardianas e aquilo que posteriormente a psicanálise procuraria compreender. Estudos contemporâneos continuam, aliás, a explorar explicitamente essas aproximações entre Kierkegaard e Freud.
1. O ser humano não nasce acabado
Uma das ideias mais interessantes de Kierkegaard é que o Self não é simplesmente uma coisa que possuímos. Tornar-se um Self é uma tarefa.
O ser humano encontra-se entre polaridades: finito e infinito, necessidade e possibilidade, temporalidade e eternidade. Não escolhemos tudo aquilo que somos. Nascemos num determinado corpo, numa família, numa época e dentro de circunstâncias que nos antecedem. Mas também somos seres de possibilidade: podemos tomar posição perante aquilo que recebemos e participar activamente naquilo em que nos tornamos.
A psicanálise acrescentaria outra dimensão decisiva:
não começamos a construir-nos a partir do zero.
Antes de escolhermos conscientemente quem queremos ser, já existe uma história.
- Há pais.
- Há desejos parentais.
- Há identificações.
- Há experiências de amor e rejeição.
- Há fantasias.
- Há proibições.
- Há perdas.
- Há palavras que foram ditas sobre nós antes de conseguirmos dizer “eu”.
Por isso, Freud introduzirá uma ferida profunda na ideia de liberdade absoluta: o Eu não é senhor na sua própria casa.
Kierkegaard pergunta: o que vais fazer com a tua existência?
Freud acrescentaria: e quem, dentro de ti, está realmente a escolher?
É precisamente no espaço entre estas duas perguntas que o diálogo entre existencialismo e psicanálise se torna fascinante.
2. A angústia não é simplesmente uma doença
Kierkegaard oferece-nos uma das suas intuições mais poderosas em O Conceito de Angústia (1844).
A angústia está ligada à possibilidade e à liberdade.
Quando o ser humano percebe que pode escolher, descobre simultaneamente que poderia escolher de outra maneira. Abre-se diante dele um campo de possibilidades e, com ele, aparece a vertigem.
Daí a famosa imagem da angústia como uma espécie de vertigem da liberdade. A investigação contemporânea continua a destacar precisamente esta ligação kierkegaardiana entre ansiedade, possibilidade, escolha e liberdade.
Isto altera radicalmente a nossa maneira de olhar para a angústia.
Nem toda a angústia significa necessariamente:
“Há alguma coisa errada comigo.”
Às vezes significa:
“Há alguma coisa que tenho de enfrentar.”
- Uma decisão.
- Uma separação.
- Uma mudança.
- Uma responsabilidade.
- Uma possibilidade de vida que assusta precisamente porque é possível.
A psicanálise, evidentemente, acrescentará outras origens para a angústia. Freud pensará a angústia em relação ao perigo, à perda do objecto, à castração, ao conflito psíquico e ao recalcamento, modificando significativamente a sua teoria ao longo da obra.
Klein encontrará formas muito primitivas de ansiedade nas relações de objecto.
Bion perguntará se existe uma mente capaz de conter e transformar experiências emocionais intoleráveis.
Assim, onde Kierkegaard pergunta pela angústia perante a liberdade, a psicanálise pode perguntar também:
- Que angústia é esta?
- De que perigo interno ela é sinal?
- Que fantasia acompanha esta escolha?
- Que perda parece estar em jogo?
- Que desejo se tornou assustador?
- Que experiência ainda não conseguiu ser pensada?
É possível, portanto, aproximar as duas tradições sem as confundir. Há inclusive trabalhos psicanalíticos que relacionam explicitamente a “vertigem da liberdade” kierkegaardiana com Freud, Melanie Klein e Bion.
3. O desespero: não conseguir ser quem se é
Talvez o conceito de Kierkegaard que mais facilmente dialoga com a clínica seja o desespero.
Em A Doença para a Morte, o desespero não significa simplesmente estar muito triste.
É algo mais profundo.
É uma perturbação na relação da pessoa consigo própria.
O indivíduo pode desesperadamente não querer ser aquilo que é.
Mas também pode desesperadamente querer ser uma determinada versão de si próprio, recusando aquilo que efectivamente é.
Kierkegaard pensa o Self como uma relação que se relaciona consigo própria; o desespero aparece quando essa relação fracassa na sua tarefa de tornar-se verdadeiramente Self.
A proximidade com a psicanálise torna-se extraordinária.
Pensemos numa pessoa que diz:
- “Eu devia ser diferente.”
- “Devia ser mais forte.”
- “Devia ter mais sucesso.”
- “Não devia precisar de ninguém.”
- “Não posso falhar.”
- “Tenho de ser perfeito.”
Freud poderia perguntar pela relação entre o Eu e o ideal do Eu.
Quanto maior a distância entre aquilo que sou e aquilo que acredito que deveria ser, maior pode tornar-se o sofrimento.
O que Kierkegaard chama desespero de não querer ser si próprio pode, numa leitura psicanalítica, fazer-nos pensar numa guerra interna entre o sujeito e as identificações, ideais e exigências que organizam a sua vida.
4. Alienação: viver uma vida que não sentimos como nossa
Nas imagens da aula aparece também a preocupação de Kierkegaard com a alienação e com uma existência excessivamente determinada pelo mundo exterior.
Este ponto aproxima-se muito de problemas posteriormente explorados pela psicanálise.
Winnicott poderia perguntar:
Estou a viver espontaneamente ou estou sobretudo a adaptar-me?
Uma pessoa pode construir uma existência socialmente extraordinária.
- Pode ter uma excelente profissão.
- Pode ser admirada.
- Pode cumprir todas as expectativas familiares.
- Pode desempenhar perfeitamente o papel de filho, marido, mãe, professor ou profissional.
E ainda assim perguntar:
“Onde estou eu no meio disto tudo?”
É impossível não pensarmos aqui no Falso Self de Winnicott.
Não porque Kierkegaard estivesse a falar do Falso Self — não estava — mas porque ambos nos permitem pensar uma existência na qual a adaptação às exigências externas pode afastar o indivíduo da experiência de autenticidade.
A pergunta deixa então de ser simplesmente:
“A minha vida está a correr bem?”
e torna-se:
“A vida que estou a viver é sentida por mim como minha?”
5. Kierkegaard e o tribunal interior
Há ainda uma ligação particularmente interessante com aquilo que Freud chamará posteriormente Supereu.
Kierkegaard fala de responsabilidade, culpa, escolha e da relação do indivíduo consigo próprio e, na sua perspectiva cristã, com Deus.
Freud seculariza radicalmente este território.
O julgamento passa para dentro.
O sujeito torna-se simultaneamente acusado e juiz.
E muitas pessoas chegam à análise precisamente assim.
Não porque tenham cometido algum crime, mas porque vivem permanentemente diante de um tribunal psíquico:
- Não fizeste o suficiente.
- Não és suficientemente bom.
- Não devias sentir isso.
- Não devias desejar aquilo.
- Devias ter conseguido mais.
Neste ponto, a psicanálise pode fazer uma pergunta que Kierkegaard provavelmente formularia noutros termos:
Perante quem estou a tentar justificar a minha existência?
6. A multidão e o desejo do Outro
Kierkegaard desconfiava profundamente da dissolução do indivíduo na multidão. Para ele, tornar-se verdadeiramente indivíduo exigia não viver simplesmente através das abstracções e expectativas colectivas. A sua filosofia privilegia a interioridade e a responsabilidade pessoal.
Lacan permitir-nos-ia deslocar novamente a questão.
O sujeito constitui-se no campo do Outro.
Aprendemos quem somos através da linguagem que nos precede.
Recebemos nomes, expectativas, lugares familiares e significantes.
Então surge uma das perguntas mais inquietantes da clínica:
Estou a desejar aquilo que desejo ou aquilo que aprendi que deveria desejar?
- Escolhi esta profissão porque a queria?
- Quero realmente este casamento?
- Preciso verdadeiramente deste estatuto?
- Porque preciso tanto que determinadas pessoas me admirem?
- O que aconteceria se deixasse de corresponder ao que esperam de mim?
A autenticidade, vista psicanaliticamente, torna-se portanto muito mais complicada do que simplesmente “ser eu próprio”.
Porque imediatamente aparece outra pergunta:
Quem é esse “eu próprio”?
7. Liberdade, determinismo e responsabilidade
Aqui encontramos talvez a tensão mais produtiva entre Kierkegaard e Freud.
Kierkegaard insiste na escolha e responsabilidade.
A psicanálise revela o determinismo inconsciente.
Aparentemente temos um conflito.
Se os meus comportamentos são influenciados pela infância, pelas identificações, pelos desejos inconscientes, pelos mecanismos de defesa e pela repetição, até que ponto sou livre?
Mas talvez a análise não elimine a liberdade.
Talvez tente aumentá-la.
Enquanto não compreendo porque repito determinada relação, simplesmente repito.
Enquanto não reconheço determinada fantasia, ela organiza silenciosamente as minhas escolhas.
Enquanto não reconheço uma identificação, posso acreditar que estou livremente a escolher aquilo que, na realidade, continuo compulsivamente a repetir.
Por isso, poderíamos formular assim:
o inconsciente não elimina necessariamente a liberdade; mostra-nos os limites da liberdade que imaginávamos possuir.
E a análise pode ampliar o espaço entre impulso e acto, entre repetição e escolha.
Um estudo dedicado precisamente à relação entre a teoria kierkegaardiana da ansiedade e a psicanálise salienta esta tensão entre liberdade, determinismo psíquico e sofrimento.
8. A clínica: não retirar toda a angústia, mas torná-la habitável
Talvez seja aqui que Kierkegaard tenha mais para ensinar à psicoterapia contemporânea.
Vivemos numa cultura que frequentemente apresenta a ansiedade exclusivamente como algo que deve desaparecer.
Mas algumas angústias não podem simplesmente desaparecer porque pertencem à própria condição humana.
- Escolher angustia.
- Amar angustia porque podemos perder.
- Ter filhos angustia porque não podemos protegê-los de tudo.
- Envelhecer angustia.
- Mudar angustia.
- Desejar angustia.
- Ser livre angustia.
- E saber que vamos morrer angustia.
A psicoterapia não pode prometer eliminar estas dimensões sem eliminar alguma coisa da própria vida.
O trabalho clínico pode ser outro:
distinguir a angústia que pertence inevitavelmente ao facto de estarmos vivos daquela que se tornou neurótica, traumática, persecutória ou incapacitante.
É justamente por isso que Kierkegaard continua tão próximo da clínica. A sua concepção da angústia influenciou fortemente a tradição psicoterapêutica existencial, incluindo Rollo May, e continua a ser discutida em relação à psicoterapia contemporânea.
Kierkegaard e Freud encontram-se numa pergunta
Kierkegaard pergunta:
Como posso tornar-me verdadeiramente aquilo que sou?
Freud responde com uma complicação:
primeiro precisamos de descobrir tudo aquilo que, sem sabermos, participa na construção desse “eu”.
Kierkegaard mostra-nos que existir implica escolher.
Freud mostra-nos que nem sempre sabemos por que escolhemos.
Kierkegaard mostra-nos que a liberdade produz angústia.
A psicanálise mostra-nos que também podemos fugir dessa angústia através do sintoma, da defesa e da repetição.
E talvez uma psicoterapia suficientemente profunda aconteça precisamente nesse encontro.
Não para fabricar uma pessoa sem angústia.
Não para lhe dizer quem deve ser.
Nem para libertá-la magicamente de toda a sua história.
Mas para ajudá-la a compreender aquilo que a determina suficientemente bem para que possa, dentro dos limites da sua existência, participar mais livremente naquilo em que se está a tornar.
Porque talvez a pergunta fundamental de Kierkegaard e da psicanálise seja, afinal, muito semelhante:
Quanto da vida que estou a viver é realmente uma vida que posso reconhecer como minha?
