O afeto é o nosso destino
Talvez aquilo que tenhamos de mais precioso não seja o tempo, nem o dinheiro, nem o sucesso. Talvez aquilo que verdadeiramente nos sustente sejam os afetos.
Vivemos deles, crescemos através deles e adoecemos quando nos faltam.
Há qualquer coisa profundamente humana no encontro com o outro. Um encontro verdadeiro, onde não precisamos de representar um papel, convencer ninguém ou esconder as nossas fragilidades. Um encontro onde somos vistos, escutados e reconhecidos. É aí que o ser humano se nutre. Não apenas biologicamente, mas psiquicamente.
Tenho vindo a defender que os afetos constituem o centro da nossa existência. Não somos apenas seres que pensam; somos seres que se vinculam. A nossa identidade constrói-se na qualidade dos laços que conseguimos estabelecer ao longo da vida. O afeto não é um adorno da existência. É a própria condição da vida psíquica.
António Alçada Baptista escreveu frequentemente sobre a amizade, sobre a ternura e sobre a necessidade de permanecermos humanos num mundo que facilmente transforma as pessoas em funções, estatísticas ou instrumentos. A sua escrita recorda-nos que viver é conservar a capacidade de nos comovermos. Há uma ética do afeto que atravessa toda a sua obra: a convicção de que ninguém se salva sozinho.
Talvez seja precisamente isso que esteja hoje em risco.
Nunca tivemos tantas formas de comunicar e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos experimentado tanta solidão.
Há milhares de seguidores, centenas de mensagens, dezenas de notificações. Multiplicam-se os "likes", os comentários e as interações digitais. Contudo, permanece aquela solidão inominável que tantos pacientes descrevem no consultório.
É possível estar permanentemente ligado e profundamente só.
As redes aproximam corpos virtuais, mas nem sempre aproximam almas.
A sociedade contemporânea parece caminhar para aquilo que poderíamos chamar uma cultura da desafetação.
A desafetação não significa ausência de emoções. Significa algo mais subtil: a perda progressiva da capacidade de sentir profundamente, de ser afetado pelo outro e de permitir que o outro nos afete.
Talvez tenha começado como uma defesa.
Se sentimos demasiado num mundo que parece não sentir, acabamos por sofrer excessivamente. Para sobreviver, endurecemos.
Criamos distância.
Aprendemos a não chorar.
Aprendemos a não depender.
Aprendemos a dizer "está tudo bem" quando tudo desmorona por dentro.
A desafetação transforma-se, assim, numa defesa coletiva contra o excesso de dor.
Mas toda a defesa tem um preço.
Quem deixa de sentir a dor também deixa de sentir plenamente o amor.
Sándor Ferenczi compreendeu isto de forma magistral. Para ele, o trauma nem sempre é um acontecimento extraordinário. Muitas vezes é silencioso, discreto, repetitivo. O trauma instala-se quando uma criança chora e ninguém responde. Quando sente medo e ninguém valida esse medo. Quando procura colo e encontra indiferença.
O que traumatiza não é apenas o acontecimento.
É a ausência de uma testemunha.
É o facto de ninguém dizer:
"Eu vejo a tua dor."
"Eu acredito em ti."
"Tu não estás sozinho."
Quando o sofrimento não encontra acolhimento, o psiquismo procura sobreviver como pode.
Ferenczi descreveu esse processo como uma clivagem. Uma parte do Eu continua a viver; outra permanece congelada no momento da dor. O sujeito adapta-se porque não teve alternativa.
O Eu passa a cuidar de si próprio porque o ambiente falhou na sua função de cuidar.
Essa adaptação garante a sobrevivência.
Mas cobra um preço elevado.
Donald Winnicott desenvolveu esta intuição ferencziana ao afirmar que o bebé necessita de um ambiente suficientemente bom para que o verdadeiro self possa nascer.
Nenhum bebé constrói a sua identidade sozinho.
É através do olhar da mãe, do pai ou de quem cuida que a criança vai descobrindo quem é.
Quando os seus gestos espontâneos encontram resposta, quando o choro é acolhido, quando o sorriso é devolvido, vai surgindo lentamente um sentimento de continuidade do ser.
Mas quando o ambiente falha repetidamente, algo diferente acontece.
A criança aprende que ser ela própria pode ser perigoso.
Então adapta-se.
Começa a responder às necessidades do ambiente, em vez de viver as suas próprias necessidades.
Nasce o falso self.
Uma armadura.
Uma blindagem.
Uma extraordinária estratégia de sobrevivência.
O verdadeiro self não desaparece.
Permanece escondido, protegido, cada vez mais pequeno, soterrado sob sucessivas camadas de adaptação.
É por isso que tantos pacientes chegam ao consultório dizendo:
"Sinto que a vida passou e eu nunca vivi."
Não lhes faltaram anos.
Faltou-lhes presença.
Faltou-lhes autorização para existir.
A psicoterapia torna-se, então, um lugar profundamente afetivo.
Não porque o terapeuta ofereça respostas prontas.
Mas porque oferece algo muito mais raro.
Presença.
Escuta.
Continência.
Validação.
Talvez a maior intervenção terapêutica seja esta: tornar-se testemunha da história do outro.
Quando alguém escuta sem julgar, quando reconhece a dor sem a minimizar, quando suporta o sofrimento sem fugir dele, algo começa lentamente a reorganizar-se.
O verdadeiro self percebe, pela primeira vez, que talvez já não precise de permanecer escondido.
É nesse espaço que o afeto recupera a sua função organizadora.
Não há elaboração sem vínculo.
Não há crescimento psíquico sem relação.
Não há saúde mental construída na ausência de encontros humanos.
Vivemos uma época em que tudo parece acelerar.
Byung-Chul Han alerta-nos para uma sociedade do desempenho, do excesso de produtividade e da exaustão. Perdemos a capacidade de contemplar, de esperar, de escutar e de permanecer.
Talvez por isso também tenhamos perdido alguma capacidade de amar.
Olhar para dentro não é um exercício de narcisismo.
É uma forma de compreender aquilo que está a acontecer fora.
Quem não conhece o próprio vazio acaba frequentemente por tentar preenchê-lo com consumo, trabalho, poder ou reconhecimento.
Mas nenhum desses objetos substitui um vínculo humano verdadeiro.
Continuo a acreditar que a esperança permanece.
A esperança é o fermento da escrita.
Escrevemos porque acreditamos que alguém nos poderá ler.
Falamos porque esperamos que alguém nos escute.
Amamos porque acreditamos que o encontro continua a ser possível.
A poesia talvez seja a linguagem mais delicada da esperança.
Ela devolve palavras àquilo que durante demasiado tempo permaneceu sem nome.
Talvez seja esse o maior desafio do nosso tempo.
Recuperar a coragem de sentir.
Voltar a construir laços.
Habitar os afetos.
Porque, no fim, aquilo que verdadeiramente permanece não são os títulos, nem os bens acumulados, nem o número de seguidores.
Permanece quem nos acolheu.
Quem acreditou em nós quando nem nós acreditávamos.
Quem nos ensinou, pelo simples facto de estar presente, que existir vale a pena.
Os afetos não são um detalhe da vida.
São a própria arquitetura da condição humana.
E talvez seja por isso que uma sociedade só será verdadeiramente saudável quando voltar a compreender que cuidar dos vínculos é cuidar da própria humanidade.
