Frigidez e dispareunia
Será a frigidez um silêncio do corpo, e a dor no coito uma outra língua com que esse mesmo silêncio se faz ouvir?
Que dizer de uma mulher que, ao aproximar-se do desejo, se retira dele como quem foge de um fogo que já a queimou antes, ou que, ao entregar-se ao ato, encontra no próprio corpo uma dor que parece recusar aquilo que o desejo pede? Não serão ambas, frigidez e dispareunia, lidas na sua raiz mais funda, formações de compromisso, no sentido freudiano rigoroso, entre um desejo e a proibição que sobre ele recai?
Não terá razão a psicanálise quando recusa tratar estes fenómenos como disfunção mecânica, a corrigir por técnica, e os lê antes como mensagem cifrada do inconsciente, memória inscrita na carne de uma história que o sujeito não consegue, ou não pode, recordar de outro modo?
Não será o próprio esfíncter que se contrai, ou o desejo que se retira, um "não" que o corpo pronuncia quando a palavra falta?
Que conflitos antigos, que interditos herdados de figuras parentais, que climas relacionais de submissão ou de intrusão, se escondem sob essa recusa do gozo?
Não terá também a relação com o parceiro presente um papel decisivo, não como causa isolada, mas como palco onde se reencenam vínculos anteriores, autoridades, culpas, silêncios?
Não ilustrará bem esta hipótese o caso de uma mulher que, casada há longos anos, viveu o sexo conjugal como fonte recorrente de dor, sem que exame algum encontrasse lesão que a explicasse por inteiro?
Consultada a analista, não terá sido de início a própria mulher a resistir à ideia de que essa dor pudesse "dizer" alguma coisa, insistindo em causas puramente físicas?
E não terá sido apenas ao longo do processo, ao deixar emergir associações sobre o casamento, a autoridade do marido, a sua infedilidade, a obediência que dele esperava a família, o corpo que sentia como não inteiramente seu dentro daquela relação, que a dor começou a revelar-se como defesa contra uma entrega que, naquele vínculo específico, não podia dar-se sem perda de si?
Não terá sido significativo que, ao separar-se do marido, e ao iniciar mais tarde uma relação com outro parceiro, essa mesma mulher tenha deixado de sentir dor, e tenha, pelo contrário, descoberto um prazer que antes lhe parecia inacessível, quase de outra ordem?
Não confirmará este desfecho, precisamente, que a dor não habitava o corpo como fato bruto e permanente, mas como resposta a um vínculo específico, àquilo que nele se repetia e que o corpo recusava?
Não seria erro, contudo, concluir daí que bastaria mudar de parceiro para que toda a dificuldade se resolvesse por si?
Não terá sido antes o próprio processo de separar-se, de reconhecer o que naquele casamento a oprimia, de reapropriar-se de um corpo que sentia cedido a outro, a verdadeira condição da mudança, e não apenas a novidade do novo parceiro?
Não estará, então, a via da escuta analítica em restituir a estes sintomas, frigidez, dor, recusa do corpo, a sua qualidade de mensagem, não os eliminando à força, mas permitindo que aquilo que protegiam, ou denunciavam, encontre finalmente palavra?
E não será só quando a palavra ocupa o lugar que o sintoma ocupava que este, tantas vezes, se torna dispensável, como o testemunha esta mulher que, ao mudar de vínculo e de si mesma, encontrou finalmente no corpo aquilo que nele lhe fora, por tanto tempo, interditado?