Autoestima Feminina: A Construção de uma Mulher que Também se Escolhe
Falar sobre autoestima feminina como se ela fosse apenas uma questão de “se amar mais” é reduzir uma experiência psíquica complexa a uma fórmula pronta.
Não basta olhar para o espelho e repetir que é bonita. Não basta dizer a si mesma que é forte. Não basta tentar pensar positivo quando, no campo inconsciente, existe uma história marcada por rejeições, comparações, abandonos, silenciamentos e pela necessidade constante de ser reconhecida pelo outro.
A autoestima não nasce de uma frase que repetimos para nós mesmos. Ela se constrói na relação que estabelecemos com nossa própria existência, com nosso desejo e, sobretudo, com o lugar que ocupamos diante do desejo do outro.
Na clínica, é possível encontrar mulheres absolutamente competentes, independentes financeiramente, bem-sucedidas profissionalmente e admiradas socialmente que, apesar de tudo isso, continuam perguntando silenciosamente:
“Será que eu sou suficiente?”
E essa pergunta revela algo importante.
Porque uma mulher pode conquistar autonomia financeira e continuar emocionalmente aprisionada. Pode ocupar espaços de poder e ainda se sentir pequena dentro de uma relação. Pode ser admirada por todos e, ainda assim, depender de uma única pessoa para sentir que tem valor.
É justamente aí que precisamos ir além da ideia superficial de autoestima.
Independência não é apenas ter o próprio dinheiro
A independência financeira é fundamental. Ter recursos próprios amplia a liberdade, aumenta as possibilidades de escolha e pode ser decisivo para que uma mulher não permaneça em situações que lhe causam sofrimento por não ter condições materiais de sair delas.
Mas dinheiro não resolve aquilo que pertence ao campo do desejo.
Uma mulher pode ter sua própria renda e ainda permanecer emocionalmente dependente de alguém que a desvaloriza. Pode pagar suas próprias contas e, mesmo assim, viver em função de uma mensagem, de uma aprovação, de uma ligação ou da atenção de outra pessoa.
Porque existem formas de dependência que não aparecem na conta bancária.
- Existe a dependência de ser escolhida.
- A dependência de ser desejada.
- A dependência de ser validada.
- A dependência de sentir que alguém precisa dela para que sua própria existência pareça ter valor.
E, muitas vezes, é justamente essa dependência que mantém determinadas mulheres presas a relações nas quais já não existe reciprocidade, respeito ou desejo, mas existe medo de perder o outro.
A independência emocional não significa não precisar de ninguém
Na perspectiva psicanalítica, não existe sujeito completamente autossuficiente.
O ser humano é constituído na relação com o outro. Precisamos de vínculos, de reconhecimento, de amor e de pertencimento. O problema não está em precisar do outro.
O problema começa quando a existência do outro passa a ser condição para a própria existência psíquica.
- Quando uma mulher precisa ser escolhida para se sentir desejável.
- Quando precisa ser procurada para sentir que é importante.
- Quando precisa ser elogiada para acreditar que é bonita.
- Quando precisa ser amada para conseguir suportar a própria imagem.
Nesse lugar, o outro deixa de ser alguém com quem ela compartilha a vida e passa a ocupar a função de sustentação do próprio valor.
E quando o valor de si depende permanentemente do olhar do outro, qualquer afastamento pode ser vivido como uma espécie de desmoronamento.
Por isso, independência emocional não significa dizer:
“Eu não preciso de ninguém.”
Significa conseguir dizer:
“Eu posso amar você sem precisar desaparecer de mim para continuar sendo amada.”
Essa é uma diferença fundamental.
A independência psicológica começa quando a mulher volta a confiar em si
Existe outro tipo de aprisionamento ainda mais silencioso: aquele em que a mulher começa a desconfiar das próprias percepções.
Ela sente que algo está errado, mas imediatamente questiona a si mesma.
- “Será que estou exagerando?”
- “Será que estou sendo ciumenta demais?”
- “Será que estou cobrando demais?”
- “Será que o problema sou eu?”
- “Será que deveria aceitar mais?”
Aos poucos, sua percepção da realidade passa a depender da interpretação do outro.
- Ela sente, mas não confia no que sente.
- Ela percebe, mas não confia no que percebe.
- Ela deseja, mas pede autorização para desejar.
- Ela sofre, mas procura primeiro uma justificativa para o comportamento de quem a machuca.
Esse processo pode ser profundamente corrosivo para a autoestima.
Porque uma das bases da autonomia psíquica é justamente a possibilidade de reconhecer a própria experiência interna.
Não significa acreditar que toda percepção é necessariamente correta. Significa ter condições de escutar a si mesma sem imediatamente desautorizar aquilo que sente.
Uma mulher psiquicamente mais autônoma consegue se perguntar:
“O que está acontecendo comigo nessa relação?”
em vez de perguntar apenas:
“O que preciso fazer para que essa pessoa continue comigo?”
Essa mudança de pergunta pode transformar uma vida.
Quando amar significa abandonar a si mesma
Talvez uma das formas mais dolorosas de fragilidade da autoestima apareça quando uma mulher começa a abrir mão de si para preservar um vínculo.
- Ela muda sua maneira de falar.
- Modifica seus comportamentos.
- Abandona interesses.
- Tolera ausências.
- Silencia incômodos.
- Reduz suas expectativas.
- Aceita migalhas afetivas.
- Perdoa aquilo que continua se repetindo.
E, pouco a pouco, vai desaparecendo dentro da relação.
Muitas vezes, isso é chamado de amor.
Mas nem todo sacrifício é amor.
Às vezes, é medo.
- Medo de ser abandonada.
- Medo de ficar sozinha.
- Medo de descobrir que, sem aquela pessoa, não sabe mais quem é.
- Medo de enfrentar a própria falta.
E a psicanálise nos ensina justamente a olhar para aquilo que existe por trás do comportamento manifesto.
Não basta perguntar por que uma mulher permanece em uma relação que a faz sofrer.
É preciso perguntar:
- O que essa relação representa para ela?
- O que ela teme perder?
- Que lugar ela ocupa nessa relação?
- O que ela acredita que perderia sobre si mesma se o outro fosse embora?
Porque, muitas vezes, o sofrimento não está apenas na possibilidade de perder alguém.
Está na fantasia de que, sem aquele alguém, ela própria perderia o seu valor.
A autoestima começa quando o desejo deixa de ser completamente comandado pelo outro
Existe uma diferença profunda entre viver desejando e viver em função de ser desejada.
Quando toda a energia psíquica está voltada para descobrir o que o outro quer, espera ou aprova, a própria mulher vai perdendo contato com o próprio desejo.
Ela se torna especialista em perceber o outro e estrangeira de si mesma.
- Sabe quando ele está distante.
- Sabe quando ele está irritado.
- Sabe o que ele gosta.
- Sabe o que ele não gosta.
- Sabe o que precisa fazer para evitar uma discussão.
- Sabe como se comportar para não ser abandonada.
Mas, quando perguntamos:
“E você? O que você quer?”
Às vezes, surge o silêncio.
É nesse ponto que a autoestima pode começar a ser reconstruída.
Não pela repetição de afirmações positivas, mas pelo reencontro com o próprio desejo.
- O que eu quero?
- O que eu não quero mais?
- O que me faz bem?
- O que me fere?
- O que eu aceito?
- O que ultrapassa meus limites?
- Que tipo de relação desejo construir?
- Que preço estou pagando para permanecer onde estou?
Essas perguntas devolvem à mulher algo que muitas relações podem ter retirado dela: a posição de sujeito.
Escolher é diferente de ser escolhida
Existe uma mudança subjetiva importante quando uma mulher deixa de organizar sua vida em torno da necessidade de ser escolhida.
Enquanto ela precisa ser escolhida, o outro permanece no lugar de quem decide seu valor.
Quando ela passa a escolher, algo muda.
- Ela começa a observar.
- A avaliar.
- A desejar.
- A recusar.
- A estabelecer limites.
- A sair.
- A permanecer.
- A dizer sim.
- A dizer não.
E, principalmente, passa a compreender que estar em uma relação não significa precisar permanecer nela a qualquer custo.
Isso não significa transformar a independência em uma fantasia de autossuficiência.
Não se trata de construir uma mulher que não precisa de ninguém.
Trata-se de construir uma mulher que não precisa se abandonar para não perder alguém.
A autoestima não nasce quando alguém finalmente nos escolhe
Talvez essa seja uma das maiores ilusões afetivas.
A fantasia de que, quando encontrarmos a pessoa certa, finalmente nos sentiremos suficientes.
Como se o amor do outro pudesse preencher definitivamente aquilo que falta.
Mas nenhuma relação consegue realizar essa promessa por completo.
- O outro pode amar.
- Pode desejar.
- Pode reconhecer.
- Pode cuidar.
Mas não pode ocupar permanentemente o lugar de sustentação do nosso próprio valor.
A autoestima se fortalece quando deixamos de exigir do outro aquilo que precisamos começar a construir em nossa própria relação conosco.
Isso não significa deixar de desejar amor.
Significa não transformar o amor em uma prova permanente de valor pessoal.
- Porque uma mulher não precisa ser escolhida por alguém para existir com dignidade.
- Não precisa ser desejada para ser desejável.
- Não precisa ser validada para ter valor.
- Não precisa permanecer em uma relação para provar que é capaz de amar.
- E não precisa aceitar qualquer forma de amor apenas porque tem medo da ausência dele.
O verdadeiro poder da autoestima
O poder da autoestima feminina não está em fazer uma mulher acreditar que é superior aos outros.
Está em permitir que ela não precise se diminuir para caber na vida de ninguém.
- Está em reconhecer seus limites sem culpa.
- Escutar seus desejos sem vergonha.
- Sustentar suas escolhas sem precisar da aprovação de todos.
- Amar sem se anular.
- Desejar sem implorar.
- Permanecer sem se aprisionar.
- Partir sem transformar a partida em prova de fracasso.
E compreender que perder alguém pode doer profundamente, mas perder a si mesma para manter alguém pode custar muito mais.
A autoestima, portanto, não é simplesmente gostar de quem se vê no espelho.
É conseguir sustentar quem se é quando o olhar do outro deixa de confirmar aquilo que gostaríamos de ouvir.
É poder olhar para si e reconhecer:
“Eu existo para além do desejo que o outro tem por mim.”
É nesse ponto que a mulher deixa de viver apenas para ser escolhida e começa, finalmente, a ocupar o lugar de quem também escolhe.
E talvez seja aí que esteja uma das formas mais profundas de liberdade:
não precisar mais se abandonar para ser amada.