Dificuldade de se Abrir na Terapia: Como Responder Direto ao Psicólogo

Blog | Psicoterapia

Você já reparou que, quando o psicólogo faz uma pergunta simples, você acaba contando uma história inteira que parece ligada, mas na verdade muda o foco da conversa? Ou, de repente, começa a perguntar sobre a vida dele, ou fala de algo que não tem nada a ver? Muita gente faz isso. E olha, não é porque você é um “paciente difícil” ou não quer mudar de verdade. É o nosso cérebro tentando nos proteger do que machuca.

De onde vem esse costume de desviar o assunto

Eu vejo isso o tempo todo – e não é só nas sessões. Muita gente aprendeu isso ainda criança. Às vezes, para não irritar os pais ou levar uma bronca, a criança mudava de assunto rapidinho. Lembro da história que a Drew Barrymore contou: quando era pequena e já atuava, a mãe testava se ela sabia as falas e coisas importantes. Se não soubesse, ela logo dizia: “Mãe, tirei nota boa em matemática!” ou “Aprendi toda a tabuada!” – assim desviava a atenção. Isso ajudava a evitar a raiva e manter a paz.

Essas pequenas estratégias viram hábito. Elas nos protegem do medo, da vergonha ou da dor. E isso é super normal – a nossa mente só quer nos poupar de sentimentos muito pesados.

Por que isso acontece tanto na terapia

Quando a gente chega na consulta, o psicólogo começa a perguntar sobre coisas que talvez nunca contamos para ninguém. Aí a proteção entra em ação: mudamos de assunto, contamos história de outra pessoa, fazemos piada, perguntamos sobre ele. Muitas vezes nem percebemos que estamos fazendo isso.

Fazer terapia não é fácil, né? A gente tem medo de chorar, de ter um ataque de ansiedade ou simplesmente “desligar” das emoções. Então o cérebro procura o caminho mais simples: fugir. E isso não significa que você não está se esforçando. Significa que você é uma pessoa que passou por coisas difíceis e está se protegendo.

Vale a pena superar essa proteção?

Sim, vale muito. Porque é exatamente atrás dessas barreiras que está o que realmente precisa de cuidado. O psicólogo não consegue ajudar se não souber o que está doendo de verdade. Precisamos chegar juntos nesses sentimentos e lembranças que ficaram guardados. Claro que dá medo. Eu mesma faço terapia e sei o quanto é difícil se abrir. Mas é ali, depois do medo, que as mudanças reais acontecem.

Como deixar a abertura um pouco mais fácil

Aqui vão algumas dicas que realmente funcionam e que vejo darem resultado com as pessoas que atendo:

  • Escreva antes da sessão: Experimente escrever em casa o que está sentindo ou o que quer falar. Só coloque no papel o que vier. Não precisa mostrar logo para o psicólogo – às vezes basta levar a folha e ler. Já é um passo enorme.
  • Fale sobre a dificuldade de falar: Se for muito difícil abordar o problema diretamente, fale sobre o bloqueio. Diga algo como: “Fico com medo de chorar na frente de alguém” ou “Sinto uma ansiedade enorme só de pensar nisso”. Assim, entendemos juntos o que está travando e podemos trabalhar formas de se acalmar.
  • Lembre-se do não-julgamento: Esse profissional está aqui para ajudar, não para julgar. Às vezes é bom repetir para si mesma: “Se eu não me abrir, nada vai mudar”. Seja gentil consigo – não é fraqueza ter dificuldade, é humano.
  • Tenha um objetivo claro: Pense no que você quer tirar dessa terapia. Quer ficar menos ansiosa? Entender melhor seus relacionamentos? Elaborar um trauma antigo? Quando se tem um foco, fica mais fácil persistir mesmo quando bate a vontade de mudar de assunto.

O mais importante: com quem você está trabalhando

Antes de se abrir de verdade, certifique-se de que se sente bem com esse psicólogo. Você precisa sentir que está sendo ouvida, compreendida e apoiada. Se não houver conexão, nenhuma técnica vai funcionar direito. Permita-se procurar alguém com quem você realmente se sinta à vontade. Isso não é luxo – é o básico.

Desviar de perguntas difíceis é coisa de gente. Todo mundo faz. Mas quando a gente vai, aos poucos, aprendendo a responder direto, algo dentro da gente começa a se transformar. Vá no seu tempo, tenha paciência consigo mesma. As mudanças não vêm de uma hora para outra, mas elas chegam.

Literatura Recomendada

  • Freud, Anna. O Ego e os Mecanismos de Defesa. Porto Alegre: Artmed, 2006. (Obra clássica que descreve os principais mecanismos de defesa do ego, sua origem e função de proteção contra ansiedade e conflitos internos).
  • Kalsched, Donald. O Mundo Interior do Trauma: Defesas Arquetípicas do Espírito Pessoal. São Paulo: Paulus, 2013. (O livro explora como, em casos de trauma, a psique cria defesas poderosas que inicialmente salvam, mas depois podem dificultar a cura).
  • Freud, Anna. The Ego and the Mechanisms of Defence. London: Hogarth Press, 1937. (Versão original em inglês da obra fundamental sobre os mecanismos de defesa do ego e seu papel na estabilidade psicológica).