Cliente Diz "Não Sei" em Sessão: Estratégias para Psicólogos na Terapia

Blog | Psicoterapia

Muitas vezes, durante uma sessão de terapia, surge aquela frase curta e aparentemente simples: “Não sei”. Ela pode aparecer de repente e deixar um silêncio no ar. Pode até gerar um instante de dúvida no terapeuta: e agora, o que faço?

Mas “não sei” raramente é o fim da conversa. Na maioria das vezes, é um convite para olhar mais de perto, com curiosidade e calma. É um sinal de que algo importante está acontecendo ali — proteção, confusão, medo, ou simplesmente um espaço novo que ainda não foi explorado. Vamos refletir sobre alguns dos significados mais comuns por trás dessa resposta e pensar em formas gentis e úteis de responder.

O cliente que quer agradar e busca orientação direta

Às vezes, “não sei” vem acompanhado de: “O que você acha que eu devo fazer?”. É como se a pessoa entregasse a decisão para o terapeuta, talvez porque não confie na própria capacidade de escolher ou porque se sinta mais segura delegando a responsabilidade para alguém.

Em vez de oferecer uma solução pronta (o que pode reforçar essa dependência), vale a pena voltar gentilmente para a pessoa: “Parece que você está me pedindo para decidir por você. Será que isso acontece porque você realmente não tem ideia, ou porque está difícil confiar no que sente agora?”. Essa pergunta abre espaço para a pessoa começar a se conectar com suas próprias ideias.

Quando “não sei” serve para evitar emoções

Outra situação comum é quando perguntamos sobre sentimentos e a resposta é: “Não sei o que sinto” ou “Não sinto nada”. Pode ser um mecanismo de proteção automático.

Aqui, o mais acolhedor é normalizar: “Tudo bem não saber ainda. Muitas pessoas não estão acostumadas a prestar atenção no que sentem. Podemos explorar isso juntos, devagar. Você nota alguma sensação no corpo agora? Alguma tensão, peso, calor?”. Se ainda for difícil, ferramentas simples como listas de emoções ou perguntas binárias (positivo ou negativo?) ajudam a dar os primeiros passos sem pressão.

O cliente que pensa demais e fica paralisado

Há quem diga “não sei” depois de analisar tudo exaustivamente: “Já pensei nisso de mil formas e nada parece certo”. A mente fica girando em círculos.

Uma abordagem útil é pausar a busca pela resposta “certa” e olhar para o que realmente importa para aquela pessoa. Por exemplo: “Quais valores ou coisas importantes para você estão em jogo nessa escolha?”. Ou, usando uma visão de partes internas: “Parece que diferentes lados seus estão falando coisas opostas. Podemos ouvir cada um deles com calma?”. Isso tira o foco da decisão imediata e traz alívio.

O cliente mais fechado ou cauteloso

Em alguns momentos, “não sei” transmite distância: pouca informação, respostas curtas, como se houvesse uma barreira. Pode ser frustrante, mas é importante lembrar que a pessoa está ali por algum motivo — uma parte dela quer estar.

O melhor caminho é validar essa proteção: “Percebo que talvez uma parte sua não queira entrar nesse assunto agora. E ao mesmo tempo você está aqui. Podemos dar espaço para essa parte que está se protegendo e entender o que ela precisa para se sentir mais segura?”. Validar abre portas que forçar nunca abre.

Quando é simplesmente verdade: “Nunca tinha pensado nisso”

Às vezes o “não sei” é genuíno e honesto: a pessoa realmente nunca parou para refletir sobre aquilo. Esses são momentos preciosos — é território novo.

Nesses casos, podemos convidar a exploração com leveza: “Que bom que estamos chegando nisso juntos. Tem algum pedaço dessa história que parece mais fácil de olhar agora? Ou prefere que eu faça algumas perguntas para ajudar a organizar as ideias?”. Depois de mapear um pouco, devolvemos: “Agora que colocamos isso na mesa, o que aparece para você? Algum receio, alguma vontade?”.

O cliente que desvia para assuntos leves ou pergunta sobre o terapeuta

Por fim, há quem use “não sei” e logo mude de assunto ou pergunte algo sobre o terapeuta. Pode ser só um hábito cultural de cortesia, ou uma forma mais sutil de evitar o foco em si mesmo.

A curiosidade ajuda: “Notei que às vezes você traz a conversa para mim. Fico curioso: o que pode estar acontecendo aí?”. Se for só cortesia, valida-se e retorna ao foco. Se for defesa, pode-se nomear com gentileza: “Parece que esse tema está difícil agora. Queremos deixar ele de lado por enquanto ou explorar o que está tornando ele desconfortável?”.

O convite final: acolher o “não sei” como porta de entrada

O mais importante é lembrar que “não sei” não precisa ser consertado imediatamente. Não temos que ter todas as respostas. Muitas vezes, esse espaço de incerteza é exatamente onde o trabalho mais profundo acontece.

Quando respondemos com curiosidade, humildade e presença, mostramos que é seguro não saber. E isso, por si só, já é transformador. A jornada não exige saber tudo de uma vez — exige apenas estar disposto a olhar junto, passo a passo.