Adoção da criança com deficiência sentimentos dos adotantes

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1 INTRODUÇÃO

A adoção é um ato repleto de emoções e desafios, principalmente quando trata-se de adotar uma criança com deficiência. Este estudo propôs-se a aprofundar nas narrativas desses adotantes, partindo-se de uma abordagem fenomenológica, a fim de compreender profundamente as complexidades de suas jornadas.

De acordo com Aranha (2001), no início do século XXI, o Brasil estava em transição entre o paradigma da integração e o paradigma da inclusão, caracterizado por iniciativas envolvendo suporte e serviços que ainda não alcançavam uma sociedade efetivamente inclusiva em todos os aspectos sociais. Esses conceitos são a base para a implementação de medidas positivas, visando garantir a participação de indivíduos com deficiência em todos os setores da sociedade, inclusive na família, com o objetivo de promover a verdadeira inclusão social.

Atualmente, segundo a amostra de dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ, 2024), existem 3.614 crianças aptas para adoção no Brasil. Dentre elas, 14,1% apresentam algum tipo de deficiência, um desafio adicional na busca por um lar. A Lei nº 12.955 (BRASIL, 2014), adicionada ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei n° 8.069/1990), representa uma das conquistas recentes em prol da inclusão social de crianças e jovens com deficiência que estão em abrigos para adoção. Essa legislação estabelece a prioridade de tramitação para processos de adoção envolvendo crianças ou jovens com deficiência ou doença crônica, proporcionando a essas crianças uma maior chance de encontrar um lar o mais rápido possível.

Neste sentido, a importância desta pesquisa reside na sua capacidade de preencher uma lacuna significativa no entendimento existente sobre adoção e deficiência. Enquanto há uma quantidade substancial de literatura sobre adoção em geral e sobre as experiências de famílias de crianças com deficiência, há uma carência de estudos que se aprofundem especificamente nas vivências dos adotantes.

A escolha de uma abordagem fenomenológica mostrou-se fundamental, pois permite uma exploração genuína das experiências subjetivas e das compreensões atribuídas pelos adotantes à sua jornada de adoção. Isso não apenas enriquece o entendimento das nuances individuais, mas reconhece também que cada história tem sua singularidade, evitando generalizações.

Considerando isso, o foco da referida pesquisa tratou de uma perspectiva acerca da adoção de crianças com deficiência. O tema abordou a compreensão das experiências e sentimentos vivenciados pelos adotantes. Assim, essa pesquisa visou a seguinte investigação: Quais são as experiências e sentimentos vivenciados por adotantes de crianças com deficiência?

Para tanto, os objetivos gerais para os pesquisadores foram a compreensão dos sentimentos e experiências de pessoas que adotam crianças com deficiência. De maneira específica, foi contextualizado acerca do fenômeno da adoção historicamente, descrevendo as experiências relatadas pelos adotantes mediante os relatos obtidos e identificando os sentimentos evidenciados nas experiências relatadas. Também, analisou-se as vivências emocionais e as estratégias usadas pelos adotantes durante o processo de adoção, apresentando o quanto os fenômenos percebidos influenciam na prática a formação de laços afetivos e do senso de parentalidade dos adotantes.

1.1 FENÔMENO DA ADOÇÃO DE CRIANÇA COM DEFICIÊNCIA

Em uma análise do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento de 2024, das 4.743 crianças e adolescentes aptos para adoção, aproximadamente 14,3% possuem algum tipo de deficiência. Este dado evidencia a expressiva presença de crianças com necessidades especiais à espera de famílias adotivas. No entanto, é preocupante observar que, dos 36.349 pretendentes na fila de adoção, apenas 3,7% expressam alguma disponibilidade para adotar crianças ou adolescentes com deficiência. Essa disparidade revela um desafio considerável na busca por lares permanentes que atendam às carências dessas crianças e adolescentes (CNJ, 2020).

Segundo Arvellos (2021), para os potenciais adotantes, os maiores obstáculos são os problemas financeiros, os problemas associados com a falta de tempo e a combinação destas duas variáveis. Outra barreira para a adesão à adoção especial é a complexidade enfrentada pelos pretendentes em compreender que adotar é simplesmente mais uma maneira de assumir o papel de pai e mãe de um ser humano frágil que está sujeito a doenças e outros desafios, assim como eles.

Ainda segundo a autora, um dos maiores desafios é lidar com o tempo. O adotante deve estar disponível para acompanhar o desenvolvimento, estando presente nas atividades necessárias ao seu desenvolvimento saudável, nos demais familiares e nas demais atividades do dia a dia. Quem tem um filho especial, adotivo ou biológico, deve estar aberto a mudanças e ajustes frequentes na sua rotina. É fundamental garantir que haja uma rede de apoio disponível para lidar com os compromissos diários, consultas médicas e exames (ARVELLOS, 2021).

Informações do CNJ mostram que há quase oito vezes mais pessoas solicitando adoção, do que crianças e jovens que estão aptos para adoção, mas o tempo de espera é longo para ambas as partes. Isso é entendido a partir da solicitação do solicitante da adoção de perfil de criança, sendo ignoradas características de deficiência ou doença crônica (BOSSA, 2018).

1.2 PESSOAS COM DEFICIÊNCIA EM UM OLHAR HISTÓRICO

A definição científica de deficiência pode ser encontrada na Convenção da ONU (2008) expresso através do art. Artigo 1.º da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, autorizado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2006:

Pessoas com deficiência são aquelas que têm limitações de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, as quais, em interação com diversas barreiras, podem dificultar sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas (art.1°⁴).

Portanto, uma pessoa com deficiência é alguém que possui uma deficiência intelectual, física, mental ou sensorial de longa duração, a qual em conjunto com outras deficiências, a impossibilita de participar de forma plena e ativa na sociedade em igualdade de condições com os demais. Nas últimas décadas, o conhecimento sobre a deficiência evoluiu de uma perspectiva médica para um conceito biopsicossocial. O modelo médico aborda fenômenos biológicos e pessoais e vê a deficiência como uma série de limitações causadas por lesões ou alterações na estrutura e função do corpo. Desde a década de 2000, surgiu uma nova perspectiva chamada modelo social da deficiência (MORAGAS, 2022).

Sidney Madruga (2021) ressalta que a deficiência é um aspecto inerente, não é algo que possa ser carregado ou transportado como um acessório ou item. Também é importante compreender que a deficiência não está relacionada com a doença, nem é o oposto da eficiência. Além disso, a deficiência deve ser vista não apenas como a constatação de uma falha ou carência em um indivíduo, mas também em relação ao seu nível de dificuldade no convívio social, profissional e familiar, e aos obstáculos que enfrenta para se integrar na sociedade.

Nesta ótica, é necessário observar os principais marcos de inclusão e o movimento das PCDs que ganhou força após o fim do regime militar e recebeu contribuições de diversos órgãos governamentais, incluindo a CORDE (Subcoordenadoria para Inclusão da Pessoa com Deficiência) e o CONADE (Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência), que juntamente com a Secretaria de Direitos Humanos, têm implantado e regularizado ações de inclusão no país (LIMA, 2005). Assim, Lima (2005) destaca que a argumentação sobre a temática da deficiência abrange diversas áreas, como histórica, psicológica, jurídica e educacional, entre outras. Além disso, traçar a evolução da situação das PCD's ao longo dos séculos não é uma tarefa simples, uma vez que é um processo complexo e variado, podendo diferir de um contexto para outro dentro do mesmo período histórico.

Paiva (2014) destaca a mudança na concepção sobre as PCD's na Era Moderna. Após as Revoluções Industriais na Inglaterra (1760) e na França (1789), surgiram relatos de pessoas com deficiência trabalhando, junto com o aumento do trabalho infantil e feminino. Embora inicialmente visassem mão de obra barata e condições de trabalho precárias, esse evento mostrou as PCD's como seres produtivos. No século XIX, houve a melhoria do código Braille, e no século XX, o estabelecimento de várias instituições dedicadas às pessoas com deficiência, refletindo uma maior preocupação com esse grupo (PAIVA, 2014).

No Brasil, antes da década de 1970, predominavam-se ações assistencialistas e de caridade. A Declaração dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência (LIMA, 2005), aprovada pela ONU em 1975, foi um marco importante que favoreceu o surgimento do movimento político das PCD's. Esse movimento desejava não apenas melhorar o contexto de vida dessa população, mas também combater o estigma de "incapaz" ou "inferior" associado a elas, bem como promover a efetiva inclusão e participação social dessa comunidade na sociedade (FIGUEIRA, 2008).

Recentemente, estimou-se que há 18,6 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, com idade igual ou superior a 2 anos, o que representa 8,9% da população nessa faixa etária. Os dados abrangem o terceiro trimestre de 2022 e fornecem uma visão detalhada das características gerais dessa comunidade, abordando temas como integração no local de trabalho e condições de estudo. Embora já se compreenda as nuances dessa população — sua diversidade, experiências e desafios — e reconheça-se que isso representa um avanço importante para a mudança, ainda é necessário admitir a carência de dados para entender plenamente as necessidades das pessoas com deficiência em todo o território nacional (BRASIL, 2023).

Assim, leis de extrema relevância estão em vigor atualmente para proteger e garantir os direitos das pessoas com deficiência. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, cujo código é 13.146/2015, popularmente denominada Estatuto da Pessoa com Deficiência, ilustra esse aspecto ao estabelecer princípios fundamentais que visam assegurar equidade de chances e inserção na sociedade. Além disso, a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada pelo Brasil em 2008, define padrões globais para garantir os direitos humanos e a plena participação das pessoas com deficiência em todas as esferas da vida. A Lei de Cotas (Lei nº 8.213/1991) também é fundamental, ao exigir a reserva de vagas para pessoas com deficiência no mercado de trabalho (BRASIL, 2008).

1.3 PERSPECTIVA DA FENOMENOLOGIA E DA ACP ACERCA DAS EXPERIÊNCIAS E SENTIMENTOS

Dentro do universo subjetivo das experiências que surgem na consciência humana, a fenomenologia busca explorar e investigar essas vivências de forma descritiva e analítica (PESSOA, 2023). Seu objetivo é compreender a complexidade dessas experiências, aprofundando a compreensão da estrutura das vivências humanas, seu desenvolvimento ao longo dos anos, sua percepção e interpretação, e, principalmente, como influenciam a formação da consciência e do significado.

De acordo com Freitas (2012) a fenomenologia traz para o campo da Psicologia uma visão individualizada em relação aos fenômenos psicológicos e à maneira de compreender e explorar a experiência humana. Ao enfocar a intersubjetividade como ponto central das questões epistemológicas e ontológicas, ocorre uma ruptura significativa, com a tradicional dicotomia entre o interno/externo e sujeito/objeto, que tem sido característica da investigação científica em psicologia ao longo de décadas.

Para Husserl (1913/2006), a compreensão do fenômeno se transforma em experiência, ou seja, a forma como algo é vivenciado, compreendido ou percebido em um contexto particular. São percepções livres de preconceitos e pressupostos, destacando a experiência direta e imediata do indivíduo como base para o conhecimento da realidade subjetiva de cada pessoa.

Deste modo, Pessoa (2023) define percepção, relacionando a quando o ser humano se une ao mundo ao seu redor, de uma forma natural e automática, sem refletir muito sobre isso, semelhante ao se ver algo ou sentir, sem necessidade de pensamento sobre o que está ocorrendo. Por exemplo, quando se vê um pássaro voando ou se sente o cheiro de uma flor, isso, para o autor, definiria percepção.

Sendo assim, o sentido, entendido como a capacidade de perceber, é uma função cerebral que dá significado aos estímulos sensoriais com base na experiência de vida e na memória, seria uma atividade que combina sensibilidade, emoção e cognição para organizar e interpretar as sensações de forma a criar a percepção, utilizando, para tanto, a sinestesia - uma associação espontânea entre sensações de naturezas distintas, mas que se mostram interligadas de acordo com o sujeito da percepção (PESSOA, 2023).

Na perspectiva humanista em Psicologia, observam-se tais pressupostos fenomenológicos. A teoria humanista surgiu como uma reação às abordagens psicodinâmicas e behavioristas, enfatizando a crença no potencial intrínseco de cada indivíduo para o crescimento e a autorrealização. A Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers (1951), é uma vertente humanista e ressalta a importância da descoberta interna, da autorregulação e da busca pela congruência.

Tanto a fenomenologia quanto a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) compartilham uma ênfase na compreensão da experiência subjetiva e na valorização da perspectiva individual. Na fenomenologia, os fenômenos são estudados diretamente como são experimentados pela pessoa, sem preconceitos ou interpretações prévias, enquanto na ACP, o terapeuta cria um ambiente de aceitação incondicional e empatia para permitir que o cliente explore sua experiência pessoal de forma autêntica (BEZERRA e BEZERRA, 2012).

Por fim, Bezerra (2007) conclui que ambas as abordagens reconhecem a importância da subjetividade e da autenticidade, promovendo um ambiente de compreensão e respeito mútuo entre terapeuta e cliente. Enquanto a fenomenologia fornece a metodologia para explorar e compreender a experiência subjetiva, a ACP oferece uma estrutura terapêutica para aplicar esses princípios na prática clínica, ressaltando sua ênfase no relacionamento terapêutico e na promoção do crescimento pessoal do cliente.

2 MÉTODO

A pesquisa propôs uma análise fenomenológica para compreender as experiências e sentimentos de pessoas que adotaram crianças com deficiência, utilizando uma abordagem qualitativa. Essa abordagem permitiu interpretar os significados atribuídos pelos participantes às suas vivências, focando tanto no que foi explicitamente comunicado quanto no que foi implícito. Para coletar esses dados, foram realizadas entrevistas não-estruturadas, complementadas por um questionário sociodemográfico que ajudou a delinear o perfil dos participantes.

A pesquisa contou com a participação de quatro adotantes de crianças com deficiência, selecionados a partir de uma lista fornecida pela Vara da Infância e Juventude de Cascavel-PR. A escolha dos participantes foi feita por sorteio, e aqueles que aceitaram participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), assegurando que estavam cientes dos objetivos, procedimentos e riscos envolvidos. Esse processo seguiu as normas éticas estabelecidas pela Resolução nº 466 de 2012, que rege a pesquisa com seres humanos no Brasil.

O contato inicial com as famílias foi feito pelos pesquisadores, que agendaram as entrevistas conforme a disponibilidade e preferência dos participantes, ocorreram presencialmente ou por videochamada. Durante as entrevistas, os participantes foram incentivados a compartilhar suas experiências de forma aberta e honesta, proporcionando uma compreensão mais profunda sobre o processo de adoção de crianças com deficiência.

Para análise de dados foi utilizada a base de pressupostos da Abordagem Centrada na Pessoa e da Abordagem Fenomenológica, partindo da pergunta disparadora. A ACP criou um espaço seguro para que o entrevistado explorasse suas emoções e percepções, concentrando-se em como ele atribuiu significado aos desafios de sua jornada. Enquanto a fenomenologia aprofundou-se na descrição das experiências vividas, buscando entender como o ato de adotar e criar uma criança com deficiência se manifestou na consciência do indivíduo e influenciou suas percepções e sentimentos ao longo do tempo (ROGERS, 1980; MERLEAU-PONTY, 2011; HEIDEGGER, 2001).

3. DESCRIÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Conforme a pesquisa realizada, serão apresentados os resultados de acordo com as seguintes categorias de análise: Perfil sociodemográfico dos participantes; Experiências e sentimentos evidenciados; Adaptação familiar e formação de vínculos; e Desafios e estratégias de superação. Os participantes foram identificados como Adotante 1, Adotante 2, Adotante 3 e Adotante 4, visando assegurar o sigilo e a anonimidade dos envolvidos.

3.1 PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO DOS PARTICIPANTES

Ao aplicar o questionário sociodemográfico nos participantes, foram observados diferentes perfis, sendo que o primeiro participante, Adotante 1, trata-se de uma mulher com idade entre 26 e 35 anos, possui ensino médio completo e uma renda familiar mensal superior a R$4.000,00. Ela enfrentou um processo de adoção que durou entre 1 e 2 anos, adotando uma criança de 3 a 5 anos, que apresenta múltiplas deficiências.

De igual modo, o segundo participante, Adotante 2, é um homem na faixa etária de 36 a 45 anos, com ensino superior completo e uma renda mensal familiar acima de R$4.000,00. O processo de adoção desse participante levou entre 2 e 3 anos, e a criança adotada tem entre 3 e 5 anos, apresentando deficiências física e intelectual.

Com relação ao terceiro participante, Adotante 3, evidencia-se uma mulher, com idade entre 36 e 45 anos, também com ensino superior completo, e sua renda familiar mensal varia entre R$ 2.001,00 e R$ 3.000,00. O processo de adoção desta participante levou menos de um ano, e a criança adotada é maior de 10 anos, com deficiência intelectual.

Por fim, o Adotante 4, é do sexo masculino, entre 46 e 55 anos, com ensino superior completo e uma renda mensal superior a R$ 4.000,00. Ele aguardou menos de um ano para concluir o processo de adoção de uma criança de 10 anos que apresenta deficiência intelectual.

O perfil dos adotantes no Brasil revela uma predominância de pessoas entre 26 e 55 anos, com níveis variados de escolaridade e uma renda familiar que, em sua maioria, é superior a R$ 4.000,00. Em consonância com dados sociodemográficos do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA, 2022), observa-se que a maioria dos adotantes possui ensino superior e apresenta condições financeiras acima da média nacional, o que tende a influenciar na disposição e capacidade para o processo de adoção, especialmente quando envolve crianças com necessidades especiais (CNJ, 2022).

Por tanto, para Siqueira e Bittencourt (2021) a presença significativa de adotantes com rendas familiares mais elevadas corrobora a tendência de que a adoção de crianças com deficiências exige uma estrutura socioeconômica favorável, tanto para custear cuidados específicos quanto para promover o desenvolvimento dessas crianças. No estudo, os perfis dos adotantes apresentados demonstram que a faixa etária e o tempo de espera para a conclusão do processo variam conforme a complexidade das condições dos adotados, refletindo os desafios enfrentados no sistema de adoção brasileiro, especialmente quando envolve crianças com múltiplas deficiências e idades mais avançadas.

3.2 EXPERIÊNCIAS E SENTIMENTOS EVIDENCIADOS

As experiências dos adotantes de crianças com deficiência são permeadas por uma vasta gama de sentimentos e percepções, que variam conforme o tempo, o contexto e o desenvolvimento das relações afetivas. Ao decidir adotar uma criança com deficiência, muitos adotantes expressam inicialmente sentimentos de incerteza e medo do desconhecido (SCHETTINI, 1998). No caso do Adotante 2, ao relatar o receio inicial sobre como seria a vida com uma criança com paralisia cerebral: "A gente se apaixonou de cara de início, né? Mas a gente ficou um pouco com receio, né? De como seria a nossa vida com ela, porque a gente não sabia exatamente como ia ser", evidencia-se uma expectativa de que as dificuldades poderiam ser avassaladoras.

Esses sentimentos são comuns, pois envolvem a antecipação de um cenário de cuidados contínuos e preocupações quanto à adaptação familiar e ao impacto na vida cotidiana. De acordo com Lazarus e Folkman (1984), a insegurança está relacionada não apenas à deficiência em si, mas ao receio de não estar à altura das demandas emocionais e físicas que essa nova realidade pode impor. Para Taylor (1983), esse medo pode ser visto como uma tentativa de autoproteção diante de possíveis frustrações ou decepções, algo natural em momentos de grande transição.

Nesse sentido, o relato do Adotante 1 "Se Deus mandou é porque a gente tem capacidade de cuidar" exemplifica como a aceitação pode ser ancorada em crenças pessoais ou espirituais, que oferecem conforto e força diante dos desafios. Essa aceitação, porém, é geralmente construída com o tempo, à medida que os adotantes se familiarizam com a criança e suas necessidades (SELIGMAN 2011).

Esse processo de aceitação também pode envolver a superação de expectativas iniciais. O Adotante 2 menciona que, inicialmente, acreditava que poderia reverter a situação da filha "a gente tinha esperança de reverter a situação dela, né? Só que cada vez que a gente ia, assim, a gente foi entendendo que não iria. A gente ia ter que aprender a conviver com ela daquela forma", esse tipo de percepção envolve uma mudança cognitiva importante, que pode gerar sentimentos ambíguos de acordo com Rogers (1980), de frustração por não poder alterar a realidade da deficiência, mas também de alívio ao aceitar a criança como ela é, sem tentar moldá-la a expectativas irreais.

Na ACP, Carl Rogers (1951) aponta que a aceitação genuína de uma pessoa, sem condições prévias, facilita o desenvolvimento de relações saudáveis. A adotante 1 afirma: "Eu esqueço que ela tem deficiência", já o adotante 3 relata: "Mas talvez vocês estivessem esperando uma fala dos desafios enquanto a deficiência dela e na verdade são tantos os desafios que a deficiência dela é só mais um desafio, né?"

O que pode ser interpretado como uma forma de ver a criança além de suas limitações, priorizando o valor intrínseco do ser humano, característica central da ACP. Esse tipo de percepção revela um nível profundo de aceitação e empatia, onde a deficiência da criança não se torna o centro da relação, mas apenas uma parte dela. Aqui, a criança passa a ser vista em sua totalidade, com qualidades e potencialidades que transcendem suas limitações físicas ou cognitivas (ROGERS, 1961).

3.3 ADAPTAÇÃO FAMILIAR E FORMAÇÃO DE VÍNCULOS

A adaptação familiar foi um tema recorrente nas falas dos adotantes. Para o Adotante 1, a adaptação foi surpreendentemente rápida, tanto para ela quanto para os outros filhos: "Desde a primeira vez que viu ela, ela já se adaptou, ela já tinha aquele vínculo com eles". A surpresa do adotante com a rapidez da adaptação também destaca como os processos emocionais não seguem um roteiro fixo, mas são influenciados pela disponibilidade emocional e pelo ambiente familiar, que facilitam o estabelecimento de laços profundos e duradouros (MERLEAU-PONTY, 2011).

Por outro lado, o Adotante 3 enfrentou mais dificuldades na formação de vínculos. O mesmo menciona que, inicialmente, não havia um vínculo claro: "No início o grande desafio é você perceber que existe mais uma pessoa e você não conhece aquela pessoa". Este relato é emblemático na fenomenologia, que vê a relação com o outro como um processo de desvelamento gradual. Heidegger (2001) afirma que o ser humano se constrói na relação com o outro, o que se reflete aqui na necessidade de tempo para que o vínculo afetivo emergisse.

Embora a adoção de uma criança com deficiência traga desafios, muitos adotantes também relatam um profundo sentimento de realização e crescimento pessoal. Para Natalio (2001), cuidar de uma criança com necessidades especiais frequentemente exige um nível elevado de comprometimento e sacrifício, mas, para muitos, essa experiência também é transformadora.

O Adotante 2 descreve como seus filhos biológicos rapidamente criaram um vínculo com a irmã adotiva, mesmo com as mudanças que a deficiência trouxe para a dinâmica familiar: "Eles tinham tudo pra, de certa forma, reclamar... mas, pelo contrário, eles ajudam a gente". Considerando isso, relembra-se de que na ACP existe a ênfase de que a empatia e o suporte emocional dos outros membros da família são elementos cruciais para o sucesso da adaptação (ROGERS, 1980).

O adotante 2 relata o processo de adaptação, reconhecendo que, apesar da paralisia cerebral da filha, ele e sua família foram capazes de construir um vínculo forte: "A gente foi pegando um amor por ela incondicional". Ele descreve o desenvolvimento desse amor como algo que cresceu ao longo do tempo, transformando-se em um afeto incondicional, o que reflete a ideia de que o vínculo entre pais e filhos adotivos pode se formar de maneira progressiva e contínua, à medida que a convivência e o cuidado mútuo se intensificam (BOWLBY, 1969).

Para alguns adotantes, como no caso do Adotante 3, o processo de construção do vínculo foi mais desafiador. A dúvida expressa na fala "Ela é uma estranha. Em que momento eu vou ter a certeza que estou amando?" reflete a complexidade emocional envolvida na adoção, especialmente quando o adotante enfrenta uma sensação de desconexão inicial. Esse tipo de sentimento pode gerar angústia, pois o adotante pode questionar sua capacidade de amar a criança de maneira genuína, ou até mesmo sentir culpa por não desenvolver um vínculo imediato (MERLEAU-PONTY, 2011).

Essa dúvida está relacionada à construção da identidade parental, que nem sempre ocorre instantaneamente. O processo de "tornar-se pai ou mãe" é gradual, a adotante 3 relata que começou a sentir-se mãe quando viu suas próprias atitudes refletidas na filha: "quando ela começou naturalmente a imitar a gente…então assim eu comecei a me ver nela, o meu jeito nela. E aí eu falei assim: eu estou me tornando mãe e ela está se tornando filha", o que aponta para o processo de construção identitária mútua que ocorre no seio da adoção. Este processo é vivido de maneira existencial, onde o reconhecimento do outro e de si mesmo se desenvolvem em paralelo (MERLEAU-PONTY, 2011).

3.4 DESAFIOS E ESTRATÉGIAS DE SUPERAÇÃO

A experiência de adoção também é marcada por desafios contínuos, especialmente no caso de crianças com deficiência. O Adotante 4, por exemplo, destaca a incerteza sobre o futuro da filha, que tem deficiência intelectual e autismo, perguntando-se sobre o nível de autonomia que ela poderá alcançar, "Mas a gente se preocupa também com o futuro, a autonomia que ela vai ter nós não sabemos, o quanto de autonomia que ela vai ter não sabemos ainda". Esse tipo de preocupação está profundamente enraizado no sentimento de responsabilidade, uma vez que os pais adotivos frequentemente se veem diante de um futuro incerto, onde não há garantias claras sobre o desenvolvimento da criança idealizado socialmente (HEIDEGGER, 2001).

Além das preocupações com o futuro, os adotantes frequentemente enfrentam desafios práticos no presente, como dificuldades de aprendizagem ou problemas de comunicação, que exigem estratégias de superação constantes. O Adotante 4 evidencia que a ausência de comunicação verbal da filha gerou uma barreira significativa para o desenvolvimento da relação, dificultando o entendimento recíproco: "A M. também não se expressava, né? Não conseguia falar, né? Então isso limitava até a nossa comunicação, porque ela não se expressava né?". A fala revela a frustração ao perceber que, por mais que houvesse um desejo de proximidade, a dificuldade de expressão da criança restringia as interações.

A fenomenologia nos auxilia a entender que a linguagem, seja verbal ou não-verbal, é uma via essencial para a constituição do ser no mundo e das relações com os outros. Merleau-Ponty (2011) afirma que é por meio do corpo que nos comunicamos e interagimos, e, nesse caso, a limitação da fala impõe um desafio à construção dessa intersubjetividade.

No entanto, apesar dessa limitação inicial, o Adotante 3 mencionou que, diante das dificuldades, ele buscava constantemente alternativas para superar os obstáculos, adaptando as demandas à realidade da filha. O adotante descreve um movimento contínuo de busca por soluções: "Então tudo que precisava e aparecia enquanto demanda, eu buscava, ia lá e a gente aplicava em casa, então a gente está sempre assim nesse movimento"; Já o adotante 4 relata:

Adotante 4: Hoje ela já está bem melhor, ela está alfabetizada, ela já fala de uma maneira mais clara, mas ainda aquém da sua idade cronológica nós já esperava por conta da deficiência intelectual, ela faz terapia de fono, ela faz T.O., faz psicopedagoga, faz fisioterapia, faz esporte e kumon e também uma terapia comportamental.

A partir do relato foi possível observar que sempre que surgia uma nova necessidade a adotante 3 se empenhava em encontrar recursos e aplicá-los no ambiente familiar:

Adotante 3: E em casa eu sempre dei esse apoio pedagógico também, então se olhar a minha sala é toda decorada com alfabeto, mapa mundi, mapa do Brasil. Então tudo a gente tenta gerar uma aprendizagem nela, nos dois primeiros anos […] então a M. chegava em casa era uma folhinha com labirinto para fazer, uma brincadeirinha. Ah quebrar, jogar quebra-cabeça. Comprei lego, é coordenação motora fina, coordenação motora grossa, vamos pintar.

Ao buscar essas alternativas e criar um ambiente propício para o desenvolvimento, os adotantes também demonstram uma flexibilidade emocional importante. Eles reconhecem as limitações impostas pela deficiência, mas não se deixam paralisar por essas dificuldades. Em vez disso, aceitam a realidade com otimismo, adotando uma abordagem ativa e focada no progresso. No ponto de vista de Seligman (2011), essa atitude é uma forma de resiliência, que se manifesta não apenas na superação das adversidades, mas também na construção de um ambiente acolhedor e estimulante para a criança.

Essa atitude de flexibilidade emocional e de tentativa contínua de conexão remete ao conceito de empatia de Rogers (1980), que enfatiza a importância de se colocar no lugar do outro e tentar entender suas necessidades.


3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo teve como objetivo compreender, por meio de uma abordagem qualitativa e fenomenológica, as experiências e sentimentos de adotantes de crianças com deficiência. A partir da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) e de uma análise fenomenológica, procurou-se captar as percepções profundas e os significados atribuídos pelos participantes às suas vivências. Ao longo do estudo, as entrevistas não-estruturadas e o questionário sociodemográfico permitiram a construção de um panorama detalhado das experiências emocionais dos adotantes, dos desafios enfrentados e das estratégias usadas para construir laços afetivos e um senso de parentalidade.

A relevância desta pesquisa transcende o âmbito acadêmico, pois aborda questões significativas para a sociedade, ampliando a compreensão sobre o fenômeno da adoção de crianças com deficiência e dando visibilidade às demandas emocionais e práticas de quem trilha esse caminho. O estudo também evidenciou o crescimento pessoal dos adotantes, que, em meio a desafios e adaptações, conseguiram ampliar sua capacidade de acolhimento e empatia. No campo acadêmico, a pesquisa contribui para a literatura sobre parentalidade, deficiência e adoção, oferecendo insights para futuras investigações e para políticas públicas voltadas a essas famílias.

Os resultados obtidos apontaram para as principais dificuldades relatadas, como a necessidade constante de adaptação às demandas específicas dos filhos, os sentimentos de incerteza inicial e a busca ativa por alternativas que auxiliassem no desenvolvimento das crianças. Também foi possível observar como essas experiências influenciaram na formação dos laços afetivos e no fortalecimento do senso de parentalidade dos adotantes. Diante dos dados, os objetivos foram alcançados, e as questões levantadas no início da pesquisa foram respondidas. A metodologia utilizada mostrou-se eficaz para capturar a complexidade das vivências dos participantes, e as teorias de Rogers, Merleau-Ponty e outros autores corroboraram a importância de uma escuta sensível e acolhedora, essencial para compreender as nuances dessas experiências.

Configurou-se como uma dificuldade aprofundar questões sensíveis com as famílias, devido à complexidade dos temas em uma única entrevista, como as influências de crenças religiosas no processo de adoção. A densidade do material gerado e a carência de estudos sobre esse tema, especialmente no contexto brasileiro, indicam a necessidade de novas pesquisas.

Como sugestões para futuras pesquisas, recomenda-se uma investigação mais ampla, que inclua adotantes de diferentes contextos socioeconômicos e culturais, além de estudos longitudinais que acompanhem o desenvolvimento dos laços familiares ao longo dos anos. Seria igualmente relevante investigar a influência de redes de apoio e serviços especializados na adaptação dos adotantes e no bem-estar das crianças. Em suma, o aprofundamento da compreensão sobre a adoção de crianças com deficiência é fundamental para apoiar esses pais e promover um ambiente mais acolhedor e inclusivo para as crianças e suas famílias.


REFERÊNCIAS

  • ARANHA, M.S.F. Paradigmas da relação entre a sociedade e as pessoas com deficiência. Revista do Ministério Público do Trabalho, 21, p. 160-173, 2001.
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