Quando a vida deixa de fazer sentido: as crises existenciais à luz da psicanálise

Artigo | Psicologia

Há momentos em que uma pessoa não chega à terapia porque tenha simplesmente um sintoma. Chega porque a vida que estava a viver deixou de fazer sentido.

Pode haver ansiedade, solidão, culpa, medo, desespero ou uma sensação profunda de desamparo. Pode haver dificuldade em tomar decisões, perda de valores pessoais e de objectivos. E essa crise pode começar a manifestar-se também no comportamento: isolamento, ruptura de relações, comportamentos compulsivos ou autodestrutivos, problemas de saúde ou uma necessidade urgente de mudar de vida.

Chamamos-lhe frequentemente crise existencial.

Mas o que acontece se olharmos para essa crise através da psicanálise?

A crise não começa necessariamente onde parece começar

Uma separação.

Uma morte.

Uma reforma.

Um despedimento.

Os filhos que saem de casa.

Uma doença.

Chegar aos 40, 50 ou 60 anos e perceber que o tempo já não parece infinito.

Ou, paradoxalmente, alcançar aquilo que sempre desejámos e descobrir que continuamos vazios.

O acontecimento pode desencadear a crise, mas a psicanálise pergunta:

Porque é que este acontecimento adquiriu este significado particular para esta pessoa?

Duas pessoas podem atravessar exactamente a mesma situação e vivê-la de maneiras completamente diferentes.

É aqui que entramos no território da história singular.

O presente toca sempre alguma coisa.

Uma perda actual pode despertar perdas anteriores. Uma rejeição amorosa pode reactivar experiências antigas de abandono. Um fracasso profissional pode atingir não apenas a carreira, mas uma identidade construída durante décadas em torno da necessidade de ser admirado, competente ou indispensável.

A crise presente pode, portanto, abrir uma porta para conflitos muito mais antigos.

Quando cai a história que contávamos sobre nós próprios

Todos construímos uma determinada narrativa acerca de quem somos.

Eu sou professor.

Eu sou mãe.

Eu sou marido.

Eu sou uma pessoa forte.

Eu sou aquele que cuida de todos.

Eu sou bem-sucedido.

Eu sou necessário.

Estas identidades são importantes. O problema aparece quando uma delas se torna praticamente toda a nossa identidade.

E então alguma coisa acontece.

A pessoa reforma-se e deixa de saber quem é sem a profissão.

Os filhos saem de casa e alguém que viveu durante décadas essencialmente como mãe pergunta quem é para além da maternidade.

Uma relação termina e a pessoa percebe que uma enorme parte da sua identidade dependia de ser desejada por aquele outro.

Surge então uma pergunta muito mais assustadora do que parece:

Quem sou eu quando aquilo que me dizia quem eu era desaparece?

A crise existencial pode ser precisamente este intervalo doloroso entre um Self que deixou de funcionar e outro que ainda não conseguiu nascer.

Freud: quando o ideal deixa de nos sustentar

Freud ajuda-nos a compreender outra dimensão destas crises.

Não vivemos apenas com aquilo que somos. Vivemos também com uma imagem daquilo que deveríamos ser.

Devia ter uma carreira melhor.

Devia ter construído uma família.

Devia ter mais dinheiro.

Devia ser mais feliz.

Devia ter aproveitado melhor a vida.

Devia ter feito outras escolhas.

A determinada altura, a pessoa olha para a vida real e compara-a com a vida imaginada.

E pode surgir uma distância dolorosa entre o Eu e o ideal do Eu.

A crise não nasce necessariamente porque a vida seja objectivamente má.

Nasce porque:

“Esta não é a vida que pensei que teria.”

Há então um luto muito particular a fazer: o luto pela vida que não aconteceu.

E este pode ser tão doloroso quanto alguns lutos por aquilo que efectivamente perdemos.

Winnicott: e se eu tiver vivido a vida dos outros?

Winnicott permite-nos colocar uma pergunta ainda mais perturbadora.

E se a crise não acontecer porque a pessoa falhou?

E se acontecer precisamente porque teve demasiado sucesso em adaptar-se?

Estudou aquilo que esperavam.

Escolheu uma profissão respeitável.

Foi o filho responsável.

Construiu a família certa.

Aprendeu a não incomodar.

Cumpriu.

Adaptou-se.

Funcionou.

Mas um dia pergunta:

“Onde estou eu nesta vida?”

É aqui que o conceito de Falso Self se torna extraordinariamente fecundo.

Uma pessoa pode funcionar admiravelmente e, no entanto, sentir que não está verdadeiramente viva.

Nesse sentido, algumas crises existenciais podem representar não apenas um colapso, mas também uma oportunidade.

Aquilo que deixou de funcionar talvez fosse precisamente aquilo que já não conseguia continuar a sustentar uma existência sentida como própria.

A angústia nem sempre é inimiga

A nossa cultura tende a tratar a angústia como algo que deve desaparecer rapidamente.

Mas Kierkegaard, e depois a tradição existencial, lembram-nos de uma coisa importante: alguma angústia pertence ao facto de existirmos.

Escolher produz angústia porque escolher uma possibilidade significa abandonar outras.

Amar produz angústia porque podemos perder.

Ser livre produz angústia porque somos responsáveis.

Envelhecer produz angústia porque o tempo começa a adquirir outro significado.

E saber que vamos morrer transforma inevitavelmente a maneira como pensamos a vida.

A psicanálise acrescenta que a angústia também pode funcionar como sinal.

Em vez de perguntarmos imediatamente:

“Como faço para isto desaparecer?”

podemos perguntar:

“O que é que esta angústia está a anunciar?”

Que conflito?

Que desejo?

Que perda?

Que mudança?

Que verdade acerca da minha vida está a tornar-se impossível continuar a evitar?

O sintoma pode estar a dizer alguma coisa

É precisamente aqui que a psicanálise resiste à tentação de reduzir todo o sofrimento a uma coisa que precisa simplesmente de ser eliminada.

Um sintoma causa sofrimento e, naturalmente, há situações em que precisa de tratamento urgente. Mas o sintoma também pode possuir uma função psíquica.

Pode proteger.

Pode evitar.

Pode substituir.

Pode expressar indirectamente aquilo que ainda não conseguimos dizer.

Por isso, numa crise existencial, talvez não devamos perguntar apenas:

“Como retiramos este sintoma?”

Mas também:

“Porque apareceu agora?”

“O que mudou?”

“O que já não pode continuar como antes?”

Nietzsche: quando os valores deixam de funcionar

Nietzsche torna esta discussão ainda mais interessante.

Algumas pessoas não perderam apenas um emprego, uma relação ou uma pessoa.

Perderam o sistema de valores que organizava a própria existência.

Trabalhar já não chega.

Consumir já não chega.

Ser reconhecido já não chega.

Aquilo que durante anos respondeu à pergunta “para quê?” deixa subitamente de responder.

É o momento do:

“Era isto?”

Nietzsche ajuda-nos a compreender que uma crise de significado não precisa de ser apenas um defeito psicológico. Pode ser também o momento em que os valores herdados deixaram de conseguir sustentar uma vida.

A pergunta deixa então de ser:

“Como posso voltar rapidamente a ser aquilo que era?”

Talvez a pergunta seja:

“Quero realmente voltar a ser aquilo que era?”

O terapeuta não deve entregar um novo sentido pronto

Aqui encontramos uma diferença fundamental entre psicoterapia e conselho.

Perante alguém que perdeu o sentido da vida, existe uma enorme tentação de oferecer rapidamente outro:

“Precisas de um hobby.”

“Precisas de conhecer alguém.”

“Precisas de viajar.”

“Precisas de pensar positivo.”

“Precisas de encontrar um propósito.”

Mas um sentido recebido do terapeuta pode tornar-se apenas mais uma vida construída segundo o desejo de outro.

O trabalho analítico é mais paciente.

Que significado tinha a vida anterior?

Porque deixou de funcionar?

Que desejos foram abandonados?

Que escolhas foram feitas para agradar?

Que perdas nunca foram verdadeiramente elaboradas?

Que ideais continuam a governar esta pessoa?

Que possibilidades começaram agora a aparecer?

Talvez a crise não seja apenas aquilo que precisa de ser resolvido

Esta é talvez a ideia mais importante.

Queremos naturalmente sair das crises. Elas doem.

Mas algumas crises também nos obrigam a interromper uma vida que estava a ser vivida automaticamente.

Aquilo que inicialmente aparece como:

“Já não sei quem sou”

pode eventualmente transformar-se numa pergunta muito mais fértil:

“Quem posso agora tornar-me?”

A psicanálise não promete eliminar a incerteza inerente a essa pergunta.

Também não entrega ao analisando uma identidade nova.

Ajuda-o a compreender como construiu a antiga.

Porque, por vezes, uma crise existencial não significa que a vida perdeu definitivamente o sentido.

Significa que o sentido que tínhamos já não chega.

E talvez o trabalho terapêutico não seja simplesmente reconstruir aquilo que caiu.

Pode ser criar condições para que, entre os escombros daquilo que já não somos e a incerteza daquilo que ainda não sabemos ser, surja finalmente uma vida que possamos reconhecer mais profundamente como nossa.