O objectivo da psicoterapia não é simplesmente eliminar sintomas
O objectivo da psicoterapia não é simplesmente vencer os sintomas, mas construir uma nova relação com aquilo que somos, com aquilo que sentimos e com aquilo que nos acontece.
Vivemos numa época fascinada pela eliminação rápida do desconforto. Se há ansiedade, queremos acabar com a ansiedade. Se há tristeza, queremos deixar de estar tristes. Se não conseguimos dormir, queremos dormir. Se existe medo, queremos eliminá-lo. O sintoma transforma-se facilmente num inimigo e a terapia numa espécie de guerra contra tudo aquilo que nos incomoda.
Mas talvez o sintoma não seja apenas um inimigo.
Às vezes, é também uma mensagem.
Uma ansiedade pode estar a dizer alguma coisa sobre a maneira como estamos a viver. Uma tristeza pode acompanhar uma perda que ainda precisa de ser reconhecida. Uma repetição pode revelar uma história que continua activa dentro de nós. Até certos comportamentos que hoje nos prejudicam podem ter sido, noutro momento da vida, maneiras possíveis de nos protegermos.
Por isso, antes de perguntar «como eliminamos isto?», talvez devêssemos perguntar:
«Para que serviu isto?»
«Quando começou?»
«De que me protegeu?»
«O que está a tentar dizer?»
Naturalmente, aliviar o sofrimento importa. Ninguém precisa de permanecer angustiado apenas para compreender melhor a sua angústia. Há sintomas incapacitantes que exigem intervenção clínica e, em determinados casos, acompanhamento médico ou psiquiátrico. Psicoterapia não significa romantizar o sofrimento.
Mas há uma diferença entre aliviar um sintoma e compreender uma pessoa.
Podemos retirar uma folha doente de uma árvore sem perceber aquilo que está a acontecer às raízes.
A psicoterapia procura algo mais profundo: transformar a relação que estabelecemos connosco próprios.
Uma pessoa pode continuar a sentir ansiedade e já não ser governada por ela.
Pode sentir tristeza sem acreditar que está destruída.
Pode reconhecer a raiva sem precisar de atacar.
Pode descobrir o medo sem sentir vergonha de ter medo.
Pode recordar o passado sem continuar permanentemente aprisionada nele.
Pode reconhecer uma ferida sem fazer dessa ferida toda a sua identidade.
É aqui que acontece uma transformação importante.
O sentimento continua a existir, mas a relação com o sentimento mudou.
E esta nova relação não se constrói apenas dentro da pessoa. Constrói-se também no encontro terapêutico.
Para alguém que passou a vida sem ser escutado, encontrar alguém que escuta pode constituir uma experiência nova.
Para quem aprendeu que mostrar fragilidade significava ser humilhado, poder mostrar-se vulnerável sem ser atacado pode ser transformador.
Para quem sempre precisou de agradar para não ser abandonado, descobrir uma relação na qual pode discordar e continuar a ser aceite abre uma possibilidade diferente de existir.
Para quem nunca conseguiu dizer «não», experimentar limites dentro de uma relação segura pode ser mais importante do que qualquer conselho.
A relação terapêutica torna-se, assim, um lugar onde algumas maneiras antigas de estar com os outros podem aparecer novamente, mas onde existe a possibilidade de não terminarem da mesma maneira.
Talvez seja esta uma das dimensões mais bonitas da psicoterapia: não podemos mudar aquilo que aconteceu, mas podemos transformar a forma como aquilo que aconteceu continua a viver dentro de nós.
O passado permanece passado.
A perda continua a ter acontecido.
A infância não pode ser repetida.
As pessoas que nos magoaram fizeram parte da nossa história.
Mas nenhuma destas coisas precisa de possuir eternamente o mesmo significado nem de determinar todas as relações que ainda estão por vir.
Por isso, não vejo a psicoterapia como uma fábrica de pessoas sem sintomas.
Aliás, uma vida completamente livre de ansiedade, tristeza, medo, conflito e contradição provavelmente não seria uma vida humana.
Prefiro pensar a saúde psíquica como uma maior liberdade interior.
Liberdade para sentir sem ser arrastado pelo sentimento.
Liberdade para pensar antes de repetir.
Liberdade para estabelecer limites.
Liberdade para amar sem desaparecer dentro do outro.
Liberdade para estar sozinho sem necessariamente se sentir abandonado.
Liberdade para reconhecer aquilo que não podemos mudar e transformar aquilo que ainda pode ser transformado.
E, sobretudo, liberdade para construir uma relação menos punitiva connosco próprios.
Talvez, no final, uma boa psicoterapia não nos permita dizer:
«Já não tenho sintomas.»
Talvez nos permita dizer algo muito mais importante:
«Agora compreendo-me melhor. Já não preciso de lutar permanentemente contra mim. Aquilo que sinto pode falar comigo sem mandar em mim.»
Porque o objectivo último não é vencer uma guerra contra nós próprios.
É deixar de precisar dessa guerra.