Não gosto de nenhum «ismo»

Artigo | Psicoterapia

Não gosto de nenhum «ismo» quando o «ismo» deixa de ser uma ferramenta para pensar e passa a ser uma fronteira que nos impede de pensar.

Não sou freudiano se isso significar que tenho de olhar para todas as pessoas exclusivamente através de Freud. Não sou kleiniano, lacaniano, junguiano ou winnicottiano se isso implicar transformar um autor numa espécie de pátria intelectual da qual já não podemos sair.

Leio-os. Estudo-os. Discuto com eles. Aprendo profundamente com eles.

Mas não pertenço a nenhum deles.

Freud ensinou-me a desconfiar daquilo que parece evidente. Jung ensinou-me a respeitar a dimensão simbólica da existência. Klein mostrou-me a intensidade do mundo interno. Winnicott ensinou-me que não basta sobreviver: precisamos de sentir que a vida é nossa e merece ser vivida. Bion ensinou-me a tolerar aquilo que ainda não compreendo. Lacan recordou-me que somos atravessados por uma linguagem que nunca dominamos completamente.

Mas nenhum deles contém sozinho o ser humano.

E ainda bem.

Porque, se uma teoria conseguisse explicar completamente uma pessoa, talvez já não estivéssemos diante de uma pessoa, mas de uma caricatura teórica.

Interessa-me muito mais a pessoa que está à minha frente do que a escola a que pertence o livro que tenho atrás de mim.

E há outra coisa que me parece fundamental: não quero construir uma prática exclusivamente fascinada pela doença.

Interessa-me o sofrimento, evidentemente. Interessa-me aquilo que dói, aquilo que se repete, aquilo que aprisiona. Mas interessa-me igualmente aquilo que permanece são.

Quando encontro alguém em sofrimento, não procuro apenas perguntar:

«O que está errado?»

Quero também perguntar:

«O que continua vivo?»

Onde está a capacidade de amar?

Onde está a curiosidade?

Onde está o humor?

Onde está a criatividade?

Onde está o desejo?

Onde está aquilo que ainda consegue estabelecer relações?

Onde está a parte daquela pessoa que, apesar de tudo aquilo que sofreu, continua a procurar a vida?

A saúde psíquica não é perfeição. Uma pessoa sã não é uma pessoa sem conflitos, contradições, angústias ou feridas. Talvez seja precisamente alguém capaz de viver com alguma complexidade sem precisar de amputar tudo aquilo que não cabe numa definição simples.

Por isso, promovo o são.

Procuro os recursos antes de procurar apenas os défices. Procuro possibilidades onde facilmente poderíamos encontrar somente sintomas. Procuro aquilo que pode crescer, aquilo que ainda consegue desejar, criar, relacionar-se e transformar-se.

E cultivo deliberadamente o gosto pelo diferente.

Não quero que aquele que chega até mim se torne parecido comigo.

Não quero corrigir a singularidade de ninguém.

Não quero normalizar aquilo que simplesmente é diferente.

Quero conseguir encontrar o outro como outro.

Talvez possamos chamar a isto xenofilia, no seu sentido mais profundo: xénos, o estrangeiro, o diferente; philia, a amizade, a afeição, a disposição para acolher.

Uma espécie de amor pelo que não é igual a nós.

E talvez a saúde mental tenha também alguma coisa desta xenofilia: a capacidade de suportar a diferença sem precisar imediatamente de a transformar em ameaça, defeito ou doença.

A diferença do outro, mas também a diferença dentro de nós próprios.

Porque somos muitos.

Somos contraditórios.

Podemos amar e sentir raiva. Desejar proximidade e precisar de distância. Ser corajosos num dia e frágeis no seguinte. Carregar uma ferida e, simultaneamente, uma extraordinária capacidade de viver.

Nenhum «ismo» consegue conter tudo isto.

É por isso que quero continuar a ler Freud sem transformar Freud numa religião; aproximar-me de Winnicott sem precisar de ser winnicottiano; conversar com Jung sem ter de me tornar junguiano; aprender com Lacan sem fazer da sua linguagem a única língua possível para falar do inconsciente.

Os grandes pensadores devem abrir-nos portas, não construir-nos prisões.

Uma teoria é boa enquanto nos ajuda a ver melhor.

Quando começa a obrigar-nos a ver apenas aquilo que ela própria prevê, deixou de ser uma janela e tornou-se uma parede.

Por isso, diante de uma pessoa, prefiro conservar alguma ignorância.

Prefiro escutar antes de classificar.

Perguntar antes de concluir.

Conhecer antes de diagnosticar.

Encontrar a pessoa antes de encontrar a teoria.

Não quero ser discípulo de um «ismo».

Quero ser estudante permanente do humano.

E, quanto mais estudo o ser humano, menos vontade tenho de o reduzir.

A minha escola é a diferença.
O meu método começa pela escuta.
E a minha fidelidade, antes de qualquer autor, é à singularidade da pessoa que tenho diante de mim.