L'amour, c'est donner ce qu'on n'a pas à quelqu'un qui n'en veut pas
Amar não é possuir
Vivemos em uma época em que o amor se transformou em promessa de completude. Desde muito cedo aprendemos, por meio das histórias, filmes e até das canções, que existe alguém destinado a preencher aquilo que sentimos que falta em nós. A ideia da "alma gêmea" ou da "outra metade" sustenta a fantasia de que o encontro amoroso encerrará nossa busca e finalmente nos devolverá uma sensação de plenitude. Embora essa narrativa seja sedutora, ela também é responsável por grande parte das frustrações que atravessam os relacionamentos, pois deposita no outro uma tarefa que nenhum ser humano é capaz de cumprir: Eliminar nossa falta.
É justamente nesse ponto que rompemos com o imaginário romântico, ao afirmar que "amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer" , Digo que não procuro diminuir o amor ou esvaziá-lo de sentido. Pelo contrário, busco revelar sua dimensão mais humana e, talvez por isso mesmo, mais complexa. O amor não nasce da abundância, mas da falta. Somos sujeitos estruturalmente incompletos, marcados por uma ausência que jamais poderá ser definitivamente cumprida. Há sempre algo que nos escapa, um vazio que nenhuma conquista, nenhum objeto e nenhuma pessoa consegue ocupar por completo. É precisamente essa incompletude que move o desejo e torna possível a experiência amorosa.
Quando nos apaixonamos, raramente encontramos apenas a pessoa que está diante de nós. Descobrimos também uma construção produzida pelo nosso próprio desejo. Projetamos aquilo que imaginamos nunca ter possuído: segurança, reconhecimento, paz, pertencimento ou felicidade. Sem perceber, transformamos o outro em depositário de expectativas que pertencem muito mais à nossa história do que à realidade da relação. No entanto, nenhuma pessoa consegue responder integralmente a essa imagem idealizada. Não porque decepcione ou ame menos, mas porque jamais foi aquilo que nossa fantasia foi construída. Talvez seja justamente nesse momento, quando a idealização começa a ceder espaço para a realidade, que o amor tenha a possibilidade de nascer de fato.
Em tese, o outro não representa apenas uma pessoa amada, mas o lugar onde depositamos aquilo que imaginamos nos completar. Entretanto, esse Outro também é atravessado pela mesma condição. Também é faltante, também deseja, também sofre, também experimenta inseguranças e vive em busca de algo que nunca consegue alcançar completamente. Reconhecer essa condição talvez seja uma das tarefas mais difíceis da experiência amorosa, porque implica abandonar a fantasia de que existe alguém capaz de responder definitivamente às nossas angústias. O outro não possui aquilo que buscamos nele, assim como nós também não possuímos aquilo que devemos oferecer.
Quando amamos, oferecemos ao outro algo que, em sentido estrito, não possuímos. Não entregamos completude, porque não somos completos. Não entregamos certezas absolutas, porque também estamos habitáveis por dúvidas e faltas. O que oferecemos é nosso desejo, nossa, presença nossa palavra e nossa disponibilidade para construir um vínculo, mesmo sabendo que nenhuma relação será capaz de eliminar a condição de incompletude que caracteriza a existência humana. O amor deixa de ser uma troca entre assuntos plenos para tornar-se o encontro entre duas faltas que se registram sem a pretensão de eliminar uma à outra.
Grande parte do sofrimento nos relacionamentos nasce justamente quando atribuímos ao parceiro a responsabilidade pela resolução de conflitos que pertencem à nossa própria história. Esperamos que ele cure feridas antigas, silencie inseguranças, devolva nossa autoestima e organize aquilo que permanece desordenado em nossa vida psíquica. Aos poucos, o parceiro deixa de ser percebido como sujeito e passa a ocupar a função de solução. Torna-se responsável pela nossa felicidade, pela nossa estabilidade emocional e até pelo sentido da nossa existência. Essa expectativa, no entanto, é insustentável. Nenhum ser humano consegue carregar o peso de ocupação desse lugar sem que a relação seja atravessada por cobranças, frustrações e ressentimentos.
Talvez amar não significa encontrar alguém que nos complete, mas construir um vínculo em que dois sujeitos possam existir preservando suas singularidades. O amor não elimina o mistério do outro, nem dissolve a distância que inevitavelmente existe entre duas subjetividades. Ao contrário, sustenta-se justamente no reconhecimento dessa alteridade. Amar implica aceitar que nunca conheceremos completamente quem está ao nosso lado, assim como jamais conheceremos integralmente a nós mesmos. Existe sempre um resto, uma parte inacessível, um enigma que resiste a qualquer tentativa de explicação.
Sob essa perspectiva, revela-se a beleza do encontro humano. Amar é oferecer aquilo que nunca possuímos plenamente, nossa vulnerabilidade, nosso desejo, nossa confiança e nossa palavra, a alguém que também é atravessado por desejos próprios, diferentes dos nossos e impossíveis de controlar. O amor não acontece porque duas pessoas finalmente se completam, mas porque duas incompletudes encontram uma forma de caminhar juntas sem exigir uma resolução a falta da outra. Talvez seja exatamente essa impossibilidade de completude que torne o amor uma das experiências mais profundas da existência, pois ele deixa de ser a busca por uma perfeição inalcançável e se transforma na escolha cotidiana de permanecer diante do outro, confirmando, com humildade, que ambos continuam sendo irremediavelmente humanos.