Quando o espelho deixa de mostrar quem somos

Artigo | Relacionamento

Existe um momento silencioso em alguns relacionamentos em que uma pessoa para perguntar "quem eu sou?" e passa a perguntar "o que ainda falta fazer pelo outro?".

Não acontece de uma vez, acontece aos poucos..........

É um cuidado aqui, uma renúncia ali. Um sonho adiado. Um limite que deixa de ser colocado. Uma justificativa para um comportamento que machuca. Até que, sem perceber, a própria identidade começa a ocupar um espaço cada vez menor. Há pessoas que entram em um relacionamento acreditando que amar é reparar aquilo que o outro nunca conseguiu resolver. Tornam-se responsáveis ​​pela felicidade, pelo equilíbrio, pelas escolhas e até pelas consequências da vida de quem está ao lado. Mas ninguém consegue sustentar esse lugar sem pagar um preço. O preço costuma ser a própria subjetividade.

Os pequenos gestos do cotidiano revelam muito mais do que imaginamos. Um ambiente constantemente desorganizado, responsabilidades sempre deixadas para o outro, necessidades ignoradas ou desrespeitadas podem parecer apenas hábitos. No entanto, quando se repetem diariamente, tornam-se mensagens silenciosas: alguém sempre cuidará disso por mim.

E esse "alguém" vai desaparecer.........

Não porque deixou de existir, mas porque passou tanto tempo olhando para as necessidades do outro que esqueceu de olhar para as próprias. É curioso como o sofrimento começa nas grandes tragédias. Muitas vezes ele nasce na reprodução dos pequenos abandonados. Na palavra que nunca vem. No pedido que nunca é ouvido. Não há cansaço que nunca tenha descanso. Até que um dia a pessoa se olha no espelho e percebe que confirma o próprio rosto, mas já não permite quem habita aquele corpo. A psicanálise nos lembra que o sofrimento também pode ser um convite. Não um convite para suportar mais, mas para ouvir aquilo que, durante muito tempo, pede em silêncio.

Talvez a pergunta mais importante não seja porque o outro nunca mudou. Talvez seja: em que momento eu deixei de me encontrar para tentar encontrar o outro? Porque o reencontro consigo mesmo não acontece quando o outro finalmente nos enxerga.

Acontece quando voltamos a ocupar um lugar dentro da própria história. E talvez seja esse o verdadeiro reflexo da maturidade: olhar para si sem culpa, considerar o próprio interesse sem fazer delas uma identidade e compreender que amar alguém nunca deveria exigir o desaparecimento de quem somos.