O meu trabalho é ser eu mesmo

Article | Mental health

Há uma profissão que não aparece nos currículos, não se aprende na universidade e não recebe salário. É, talvez, a mais exigente de todas: a de sermos nós próprios.

Na perspetiva de Winnicott, a saúde mental não consiste em parecer equilibrado, eficiente ou socialmente admirável. Consiste em viver a partir do verdadeiro self, dessa parte espontânea, criativa e viva que nasce quando, na infância, encontramos um ambiente suficientemente bom para existir sem medo de sermos quem somos.

O problema é que, para sobreviver, muitas pessoas tiveram de abdicar dessa espontaneidade. Aprenderam desde cedo que era mais seguro agradar do que sentir, obedecer do que desejar, corresponder às expectativas do que escutar a própria voz. Assim nasce aquilo a que Winnicott chamou falso self: uma personalidade construída para garantir amor, aceitação e proteção.

O falso self é extremamente competente. Trabalha, produz, sorri, responde a todas as mensagens, cumpre horários e satisfaz expectativas. Mas, muitas vezes, fá-lo à custa de um enorme vazio interior. A pessoa sente que está constantemente a representar um papel. Vive, mas não se sente verdadeiramente viva.

É por isso que tantas pessoas chegam ao consultório dizendo: "Não sei quem sou." Não perderam a identidade de um dia para o outro. Foram-se afastando dela, pouco a pouco, sempre que acreditaram que a autenticidade era perigosa.

Ser verdadeiro não significa dizer tudo o que pensamos nem agir por impulso. Também não significa rejeitar as regras da convivência. A autenticidade é muito mais profunda. É a capacidade de reconhecer aquilo que sentimos, aquilo que desejamos e aquilo que faz sentido para nós, sem vivermos permanentemente prisioneiros do olhar dos outros.

A espontaneidade é um dos maiores sinais de saúde psíquica. Quando conseguimos brincar, criar, rir sem cálculo, emocionar-nos, amar sem máscaras e até chorar quando é preciso, algo do verdadeiro self está presente. A espontaneidade não é infantilidade; é vitalidade. É a vida a manifestar-se sem precisar de autorização.

Por isso, o processo terapêutico não procura fabricar uma nova personalidade. Não pretende ensinar alguém a ser outra pessoa. O seu objetivo é criar um espaço suficientemente seguro para que o verdadeiro self possa emergir, muitas vezes depois de décadas escondido atrás de mecanismos de defesa que, em tempos, foram essenciais para sobreviver.

Há um momento muito bonito na análise: quando o paciente deixa de perguntar "O que esperam de mim?" e começa, finalmente, a perguntar "O que é que eu sinto?", "O que é que eu desejo?", "Quem sou eu quando não estou a tentar agradar?".

Estas perguntas marcam o início de uma vida mais autêntica.

Talvez o maior desafio da idade adulta não seja conquistar mais sucesso, mais reconhecimento ou mais poder. Talvez seja recuperar a criança que um dia pôde brincar livremente, antes de aprender que precisava de esconder partes de si para ser amada.

No fundo, a maturidade não consiste em construir uma máscara cada vez mais sofisticada. Consiste em ganhar coragem para a retirar.

Porque o verdadeiro trabalho de uma vida inteira não é impressionar os outros.

É tornar-nos, pouco a pouco, na pessoa que sempre fomos chamados a ser.

Ser verdadeiro.

Ser espontâneo.

Ser, simplesmente, nós próprios.