A Saudade: Entre a Memória, o Luto e a Esperança

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Parte I — A saudade na literatura lusófona e os seus fundamentos psicanalíticos

Poucas palavras são tão profundamente portuguesas como saudade. Costuma dizer-se que é intraduzível, não porque outras línguas não conheçam a experiência da ausência, mas porque nenhuma parece reunir, numa única palavra, tantas camadas afectivas: amor, perda, memória, esperança, nostalgia, desejo e permanência.

A saudade tornou-se uma espécie de património emocional da língua portuguesa. Está presente na poesia medieval, no fado, na literatura portuguesa, brasileira, africana e até na forma como muitos portugueses habitam o tempo. Não é apenas sentir falta; é continuar ligado ao que já não está, permitindo que essa ausência permaneça viva dentro de nós.

Fernando Pessoa escreveu que "a minha pátria é a língua portuguesa". Talvez possamos acrescentar que a saudade é uma das pátrias afectivas dessa língua. Ela atravessa séculos de literatura, assumindo diferentes formas, mas conservando sempre a mesma essência: a consciência de que aquilo que amamos nunca desaparece completamente.

Teixeira de Pascoaes, talvez o escritor que mais profundamente pensou este sentimento, afirmava que "a saudade é o desejo da coisa ou da criatura amada, tornado doloroso pela ausência." Para ele, a saudade não era simplesmente tristeza. Era uma força criadora, capaz de manter vivos aqueles que já partiram e de transformar a ausência numa presença interior.

Miguel Torga via na saudade uma fidelidade silenciosa àquilo que nos constitui. Sophia de Mello Breyner Andresen fazia da memória um lugar onde o passado continuava a respirar. Carlos Drummond de Andrade lembrava-nos que "a dor é inevitável, o sofrimento é opcional", mostrando que recordar não precisa significar permanecer aprisionado ao passado. Mia Couto escreve frequentemente que aquilo que verdadeiramente desaparece nunca desaparece totalmente; transforma-se em memória habitada.

Clarice Lispector, talvez uma das escritoras que melhor compreendeu este fenómeno, escreveu uma frase inesquecível:

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença."

É difícil encontrar definição mais bela.

A saudade alimenta-se precisamente da impossibilidade dessa presença. Por dentro, procuramos localizar aquela pessoa, aquele momento ou aquele lugar onde fomos felizes. O psiquismo tenta reencontrar algo que existiu, mas que já não pode ser tocado.

E é precisamente aí que nasce a dor.

A saudade é, afinal, uma presença feita de ausências.

A psicanálise ajuda-nos a compreender este paradoxo.

Quando sentimos saudades, o nosso mundo interno tenta reencontrar um objecto afectivo que permanece vivo dentro de nós. Esse objecto pode ser uma pessoa, uma casa, uma infância, uma amizade, um amor ou até uma determinada versão de nós próprios.

Mas aquilo que procuramos internamente já não existe da mesma forma.

Ou desapareceu.

Ou transformou-se.

Ou somos nós que já não somos os mesmos.

Existe sempre uma tentativa psíquica de localizar esse objecto interno. Contudo, essa procura está inevitavelmente condenada ao fracasso, porque o tempo não pode ser recuperado.

A saudade torna-se então um movimento incessante entre aquilo que permanece vivo na memória e aquilo que já não pode regressar à realidade.

É por isso que podemos sentir saudades de alguém que ainda está vivo.

Quantas vezes encontramos uma pessoa que continua exactamente diante de nós, mas sentimos falta daquilo que ela foi?

Sentimos saudades do casamento que existiu.

Da amizade que mudou.

Do pai antes da doença.

Da mãe antes do envelhecimento.

Da criança que fomos.

O objecto continua presente na realidade externa, mas deixou de existir na realidade psíquica exactamente como o conhecíamos.

A saudade não depende da morte.

Depende da transformação.

Também podemos sentir saudades de momentos.

Um Verão específico.

Um Natal em família.

Os almoços de domingo.

A escola.

A universidade.

As conversas que pareciam infinitas.

Os cafés demorados.

O cheiro da casa dos avós.

Esses momentos possuem uma característica comum: foram profundamente efémeros.

Enquanto os vivíamos, raramente tínhamos consciência da sua delicadeza.

Só mais tarde percebemos que aquela conversa era a última.

Que aquele abraço nunca mais se repetiria.

Que aquele almoço encerrava discretamente uma época inteira da nossa vida.

Vivemos como se tudo fosse durar para sempre.

Mas nada dura.

A existência é profundamente transitória.

Ainda agora celebrávamos o Natal.

Logo estaremos na Páscoa.

Os anos deixam de ser anos e passam a parecer semanas.

A vida acelera de tal forma que frequentemente só compreendemos o valor do presente quando ele já pertence ao passado.

Talvez por isso pequemos tantas vezes por excesso de racionalização.

Guardamos a roupa "para uma ocasião especial".

Reservamos a loiça bonita para as visitas.

Adiamos viagens.

Adiamos conversas.

Adiamos abraços.

Adiamos pedidos de desculpa.

Adiamos demonstrações de carinho.

Como se existisse sempre uma ocasião futura garantida.

Mas ninguém sabe qual foi a última vez.

Talvez já tenha acontecido.

Talvez ainda aconteça hoje.

A consciência desta fragilidade não deve produzir ansiedade.

Deve produzir presença.

Porque o presente é extraordinariamente delicado.

A saudade é também um dos muitos nomes daquilo que Freud chamaria falta.

Toda a vida psíquica organiza-se em torno da ausência.

Desejamos precisamente porque alguma coisa nos falta.

Se estivéssemos plenamente satisfeitos, o desejo desapareceria.

A saudade nasce exactamente nesse intervalo entre aquilo que possuímos interiormente e aquilo que perdemos exteriormente.

Ela testemunha que houve vínculo.

Que houve investimento afectivo.

Que houve amor.

Por isso a saudade possui uma beleza paradoxal.

Só sentimos saudades daquilo que verdadeiramente nos marcou.

A saudade é quase sempre uma homenagem silenciosa ao vínculo.

Mas existe outra experiência muito diferente.

Há pessoas que dizem sentir saudades da infância que nunca tiveram.

Do pai que nunca conheceram.

Da mãe afectuosa que nunca existiu.

Do amor que nunca viveram.

Aqui entramos noutra esfera da experiência humana.

Já não estamos perante a saudade.

Estamos perante a frustração.

A diferença é subtil, mas profundamente importante.

Na saudade existe memória.

Existe história.

Existe um laço anteriormente vivido.

Na frustração existe sobretudo imaginação.

Deseja-se aquilo que nunca chegou verdadeiramente a existir.

É uma ausência sem memória.

E, precisamente por isso, muitas vezes ainda mais dolorosa.

Porque não há sequer um passado onde repousar.

Há apenas uma possibilidade eternamente perdida.

É por isso que tantos adultos vivem amargurados.

Não pelo que perderam.

Mas pelo que nunca se permitiram viver.

As palavras que nunca disseram.

Os afectos que nunca demonstraram.

As viagens que adiaram.

Os filhos que nunca tiveram.

As reconciliações que nunca procuraram.

As oportunidades que deixaram escapar.

Talvez a amargura seja, afinal, o oposto da saudade.

A saudade nasce do amor vivido.

A amargura nasce da vida não vivida.

É aqui que encontramos um sentimento muito próximo: o ressentimento.

A própria etimologia da palavra revela muito do seu funcionamento.

Ressentir significa literalmente sentir de novo.

O ressentido revive continuamente aquilo que não conseguiu elaborar.

Tenta sentir hoje aquilo que, por alguma razão, ficou interrompido no passado.

Enquanto a saudade permanece aberta à vida, o ressentimento fecha-se sobre si próprio.

Quem sente saudades continua disponível para novas experiências.

Quem vive no ressentimento permanece aprisionado na repetição da mesma ferida.

O ressentido sofre durante anos.

Às vezes durante décadas.

Porque continua preso à fantasia de que o passado ainda pode ser corrigido.

A saudade, pelo contrário, aceita lentamente que o tempo passou.

E é precisamente essa aceitação que permite continuar a amar sem permanecer escravo da perda.

Freud chamaria a este movimento o trabalho do luto.

E é precisamente aí que começaremos a nossa próxima reflexão.

Parte II.

A Saudade: Entre a Memória, o Luto e a Esperança

Parte II — Freud, Melanie Klein e Winnicott: a saudade como trabalho psíquico

Se, na primeira parte desta reflexão, vimos que a saudade nasce da experiência da falta e da memória, importa agora compreender aquilo que a psicanálise nos ensina sobre esse sentimento. A saudade não é apenas um estado emocional; é também um trabalho psíquico. Ela participa na forma como elaboramos as perdas, integramos as experiências e continuamos a viver depois de aquilo que amávamos deixar de estar presente.

Freud nunca escreveu um tratado específico sobre a saudade, mas toda a sua teoria do luto, desenvolvida sobretudo em Luto e Melancolia (1917), ajuda-nos a compreender este fenómeno.

Quando perdemos alguém, ou alguma coisa que investimos de amor, não desaparece apenas o objecto. Uma parte da nossa energia afectiva permanece ligada a ele. Freud chamou a esse investimento libido. O luto consiste precisamente no lento processo através do qual essa energia vai sendo retirada do objecto perdido para poder voltar a investir na vida.

Este processo é tudo menos simples.

O ser humano possui uma enorme dificuldade em renunciar aos seus vínculos. Não desistimos facilmente de quem amámos, dos lugares onde fomos felizes, das versões de nós próprios que existiram. O nosso psiquismo resiste à separação porque amar significa sempre criar uma ligação profunda entre o Eu e o objecto.

É por isso que a saudade acompanha o luto.

Ela caminha ao seu lado.

Enquanto o luto vai elaborando a perda, a saudade vai preservando a memória.

Ambos trabalham em conjunto.

A saudade recorda.

O luto transforma.

Nenhum deles procura apagar aquilo que aconteceu.

Pelo contrário.

O objectivo nunca é esquecer.

É conseguir lembrar sem ser destruído pela lembrança.

Costumo pensar no meu próprio luto pela morte da minha mãe.

Passaram cinco anos.

Durante muito tempo, cada recordação vinha acompanhada de uma dor quase insuportável. Bastava ouvir determinada música, passar por determinado lugar ou encontrar um objecto seu para sentir que a perda acontecia novamente.

Hoje continuo a sentir saudades.

Talvez até mais do que antes.

Mas já não sinto a mesma dor.

Falo dela com mais ternura.

Com mais afecto.

Com mais leveza.

Ela continua viva dentro de mim, mas deixou de ocupar todo o espaço do meu mundo interno.

É precisamente isto que Freud descreve.

O objecto perdido deixa de dominar completamente a nossa vida psíquica.

Não desaparece.

Integra-se.

Passa a fazer parte da nossa história.

A saudade continua.

O sofrimento muda de forma.

Mas nem sempre o luto segue este caminho.

Por vezes ficamos presos à perda.

A vida deixa de avançar.

O passado ocupa permanentemente o presente.

A saudade deixa de ser uma ponte e transforma-se numa prisão.

É aqui que Freud distingue o luto da melancolia.

No luto sabemos aquilo que perdemos.

Na melancolia perde-se também uma parte do próprio Eu.

Como se a identidade tivesse sido construída de forma tão dependente daquele objecto que, desaparecendo ele, desaparecesse igualmente uma parte de nós.

É por isso que algumas pessoas nunca conseguem sair da nostalgia.

Vivem permanentemente voltadas para trás.

Tudo era melhor.

Tudo perdeu qualidade.

Nada faz sentido.

O presente torna-se apenas uma sombra do passado.

Esta fixação impede novos investimentos afectivos.

A vida deixa de crescer.

Passa apenas a repetir.

É aqui que a saudade deixa de cumprir a sua função saudável.

Quando deixa de abrir espaço para a memória e começa a impedir o futuro, deixa de ser elaboração para se transformar em estagnação.

Melanie Klein aprofunda esta compreensão de forma extraordinária.

Na sua teoria do desenvolvimento emocional encontramos um conceito frequentemente mal compreendido: a posição depressiva.

O nome assusta.

Muitas pessoas pensam imediatamente em depressão clínica.

Mas Melanie Klein está a falar de algo completamente diferente.

A posição depressiva é, na realidade, uma das maiores conquistas do desenvolvimento psíquico.

É o momento em que deixamos de ver o mundo dividido entre bons e maus.

Entre tudo ou nada.

Entre perfeição e destruição.

A criança começa finalmente a compreender que a mãe que a frustra é exactamente a mesma mãe que a alimenta.

O amor e o ódio dirigem-se ao mesmo objecto.

Essa descoberta provoca tristeza.

Mas é uma tristeza profundamente saudável.

Porque inaugura a possibilidade da reparação.

Quando percebemos que amamos e magoamos a mesma pessoa, nasce também o desejo de cuidar dela.

De reparar os danos.

De preservar o vínculo.

É precisamente aqui que a saudade encontra um lugar privilegiado.

Quando sentimos saudades de alguém, não recordamos apenas os momentos felizes.

Recordamos também as palavras que nunca dissemos.

Os gestos que faltaram.

Os pedidos de desculpa adiados.

Os telefonemas que nunca fizemos.

Os abraços que poderiam ter sido mais demorados.

A saudade convida frequentemente à reparação.

Enquanto a pessoa vive, ainda podemos telefonar.

Mandar uma mensagem.

Passar mais tempo juntos.

Dizer finalmente aquilo que sempre adiámos.

A maturidade consiste precisamente nisso.

Reconhecer que nunca existiram relações perfeitas.

Mas que sempre existe alguma coisa que ainda pode ser reparada.

Quando o objecto já morreu, essa reparação deixa de ser externa.

Passa a acontecer dentro de nós.

Cuidamos da memória.

Falamos dessa pessoa com carinho.

Mantemos vivos os seus ensinamentos.

Continuamos, de certo modo, a dialogar com ela.

É uma reparação simbólica.

Profundamente humana.

Contudo, Melanie Klein alerta também para outro fenómeno.

Podemos ficar fixados na posição depressiva.

Nesse caso, a tristeza deixa de amadurecer o psiquismo.

Transforma-se numa forma permanente de existir.

A culpa torna-se insuportável.

A reparação parece impossível.

A pessoa deixa de viver.

É aqui que surgem muitas formas de depressão patológica.

A saudade deixa de ser memória.

Passa a ser um peso insustentável.

Para escapar a essa dor, muitas pessoas recorrem àquilo que Klein chamou defesas maníacas.

Todos conhecemos este movimento.

Alguém sofre uma perda importante.

Em vez de permitir a tristeza, mergulha imediatamente na actividade.

Compra compulsivamente.

Viaja sem parar.

Trabalha excessivamente.

Sai todas as noites.

Consome álcool.

Usa drogas.

Procura qualquer coisa que silencie o vazio.

Vivemos numa sociedade que incentiva exactamente este tipo de defesa.

A tristeza tornou-se quase um escândalo.

Como se fosse proibido sofrer.

Como se a felicidade permanente fosse uma obrigação moral.

Mas a tristeza possui uma função.

Ela permite integrar.

Permite pensar.

Permite amadurecer.

Há dores que precisam simplesmente de ser vividas.

Não podem ser aceleradas.

Nem anestesiadas.

É neste ponto que Donald Winnicott oferece talvez uma das perspectivas mais belas sobre a saudade.

Para Winnicott, a saúde psíquica nasce da capacidade de habitar aquilo que chamou espaço transicional.

Esse espaço situa-se entre a realidade interna e a realidade externa.

Não pertence exclusivamente ao mundo objectivo nem exclusivamente à fantasia.

É uma zona intermédia.

É aí que brincamos.

Que criamos.

Que fazemos arte.

Que amamos.

Que rezamos.

Que sonhamos.

Que fazemos análise.

Winnicott dizia que toda a psicoterapia acontece precisamente nesta área intermédia da experiência.

Porque é nesse espaço que conseguimos ligar o mundo interno ao mundo externo.

A saudade vive exactamente nesse território.

Ela não pertence apenas à realidade.

Nem apenas à imaginação.

Quando sinto saudades da minha mãe, ela não está fisicamente presente.

Mas também não é apenas uma fantasia.

Existe dentro de mim como um bom objecto interno.

Posso recordar a sua voz.

O seu cheiro.

As suas palavras.

As suas expressões.

Posso até orientar decisões importantes da minha vida perguntando-me, silenciosamente:

"O que diria ela neste momento?"

O objecto continua vivo.

Mas vive de outra forma.

É uma presença interior.

Esta integração permite um movimento extraordinariamente saudável.

Sinto saudades de um amigo.

Então telefono-lhe.

Sinto saudades do meu pai.

Vou visitá-lo.

Sinto saudades da minha infância.

Leio um livro dessa época.

Volto à terra onde cresci.

Faço um prato que a minha mãe costumava cozinhar.

A realidade interna encontra a realidade externa.

A saudade transforma-se em gesto.

Em criatividade.

Em encontro.

É precisamente isto que Winnicott entendia por saúde.

Na terceira e última parte veremos como esta capacidade tem sido profundamente ameaçada pela sociedade contemporânea. A partir das reflexões de Byung-Chul Han, compreenderemos de que forma a perda dos rituais, a aceleração do tempo e o excesso de tecnologia alteraram radicalmente a nossa relação com a saudade. Terminaremos com uma reflexão sobre um dos pensamentos mais profundos de Clarice Lispector: a saudade de nós próprios.

parte III.

A Saudade: Entre a Memória, o Luto e a Esperança

Parte III — Winnicott, Byung-Chul Han e a saudade de nós próprios

Donald Winnicott dizia que o brincar é o lugar da saúde. À primeira vista, esta afirmação pode parecer estranha. Afinal, o que tem o brincar a ver com a saudade?

Tudo.

Para Winnicott, existe uma área da experiência humana situada entre a realidade objectivamente percebida e a realidade subjectivamente vivida. Chamou-lhe espaço transicional. É um território intermédio onde habitam a arte, a literatura, a religião, o humor, a criatividade, o amor e também a psicoterapia.

É precisamente neste espaço que conseguimos dar significado às nossas experiências.

Quando uma criança brinca com um ursinho de peluche, ela sabe que aquele objecto não é verdadeiramente a mãe. Mas, ao mesmo tempo, naquele momento ele também é a mãe. O objecto transicional permite suportar a ausência sem negar a realidade.

A saudade funciona de forma semelhante.

Quando olhamos para uma fotografia antiga, sabemos que aquele momento já passou. No entanto, durante alguns instantes, ele volta a existir dentro de nós.

Quando ouvimos uma música que os nossos pais escutavam, algo se reacende.

Quando sentimos o cheiro de um bolo acabado de sair do forno e imediatamente regressamos à cozinha da infância.

Quando passamos por uma rua onde demos o primeiro beijo.

Nada disso devolve o passado.

Mas tudo isso o torna vivo por breves instantes.

É nesse movimento que a saudade revela a sua natureza profundamente transicional.

Ela liga o mundo interno ao mundo externo.

Não ficamos apenas presos à memória.

Nem vivemos apenas no presente.

Conseguimos fazer dialogar os dois.

É isso que significa amadurecer.

Winnicott afirmava ainda que, quando uma pessoa perde a capacidade de brincar, perde também uma parte importante da sua saúde psíquica.

O analista não procura apenas interpretar o paciente.

Procura ajudá-lo a voltar a brincar.

Brincar significa voltar a ser espontâneo.

Criativo.

Capaz de imaginar.

Capaz de transformar.

Ora, quando alguém vive exclusivamente na realidade objectiva, tudo se torna rígido.

As relações tornam-se tarefas.

Os encontros tornam-se compromissos.

Os afectos transformam-se em obrigações.

A pessoa telefona porque "tem de telefonar".

Visita porque "fica mal não visitar".

Compra presentes porque "é o protocolo".

Mas falta qualquer coisa.

Falta precisamente aquilo que pertence ao mundo interno.

O gesto existe.

O afecto desapareceu.

É uma vida funcional, mas empobrecida.

Infelizmente, é esta realidade que caracteriza grande parte da nossa época.

Vivemos numa sociedade que privilegia a produtividade, a eficiência e o desempenho.

Temos agendas preenchidas.

Notificações permanentes.

Respostas imediatas.

Tudo precisa de acontecer depressa.

Como consequência, sobra cada vez menos espaço para aquilo que Winnicott considerava essencial: o vazio criativo.

Porque é no vazio que nasce o pensamento.

É no silêncio que surgem as recordações.

É na pausa que a saudade encontra lugar para respirar.

É precisamente aqui que as reflexões de Byung-Chul Han se tornam particularmente actuais.

No seu livro O Desaparecimento dos Rituais, Han afirma que a sociedade contemporânea foi perdendo lentamente os rituais que organizavam a vida humana.

Os rituais davam espessura ao tempo.

Criavam continuidade.

Transformavam momentos comuns em experiências carregadas de significado.

Hoje quase tudo permanece.

Mas pouca coisa verdadeiramente acontece.

Celebramos aniversários.

Mas muitas vezes fazemos festas para serem fotografadas.

Não para serem vividas.

Vamos a concertos.

Mas passamos metade do espectáculo a filmar.

Olhamos para o palco através do ecrã do telemóvel.

Regressamos a casa com centenas de vídeos.

Mas poucas memórias verdadeiramente vividas.

Os almoços de domingo tornaram-se cada vez mais raros.

Os natais em família são frequentemente interrompidos pelos telemóveis.

Os álbuns de fotografias deram lugar a milhares de imagens perdidas na nuvem.

As cartas desapareceram.

E com elas desapareceu também uma forma profundamente íntima de esperar.

Esperar fazia parte do amor.

Esperar fazia parte da amizade.

Esperar fazia parte da saudade.

Hoje enviamos uma mensagem pelo WhatsApp.

Recebemos dois vistos azuis.

Esperamos cinco minutos.

E já sentimos ansiedade.

A tecnologia resolveu muitos problemas.

Mas também reduziu a espessura emocional do tempo.

Antigamente, escrever uma carta obrigava-nos a parar.

A pensar.

A escolher cuidadosamente cada palavra.

A reler.

A dobrar a folha.

A colocá-la no envelope.

A esperar dias ou semanas pela resposta.

Todo esse processo era já uma forma de presença.

Hoje comunicamos muito mais.

Mas encontramo-nos muito menos.

Nenhuma conversa por WhatsApp substitui uma conversa frente a frente.

Nenhum emoji substitui um abraço.

Nenhuma videochamada substitui um olhar.

Há afectos que só existem na presença física.

No cheiro.

Na voz.

No silêncio partilhado.

Na mão pousada sobre outra mão.

É aí que a saudade continua a lembrar-nos aquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir.

Talvez por isso existam saudades que nos fazem crescer e saudades que nos adoecem.

Há uma saudade saudável.

É aquela que preserva a memória sem impedir o futuro.

Que honra o passado sem abandonar o presente.

Que nos permite recordar sem desejar regressar.

Mas existe também uma saudade construída sobre a idealização.

"Na minha época é que era."

"Antigamente havia respeito."

"Hoje já não existe nada de bom."

Naturalmente, algumas coisas eram realmente melhores.

Havia mais proximidade entre vizinhos.

As crianças brincavam mais na rua.

Os ritmos eram menos acelerados.

Mas também existiam problemas que muitas vezes esquecemos.

A memória selecciona.

Embeleza.

Idealiza.

Quando a saudade se transforma em nostalgia permanente, deixa de ser memória.

Passa a ser resistência ao presente.

E quem vive permanentemente voltado para trás perde a possibilidade de encontrar beleza no agora.

O desafio não consiste em abandonar o passado.

Consiste em habitá-lo sem deixar de viver o presente.

É isso que Winnicott chamaria habitar o espaço intermédio.

Há ainda outra forma de saudade que talvez seja a mais profunda de todas.

Clarice Lispector escreveu:

"Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu? Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim — enfim, mas que medo de mim mesma."

Esta não é apenas uma frase bonita.

É uma extraordinária descrição clínica.

Há momentos em que deixamos de habitar a nossa própria vida.

Vivemos para responder.

Para produzir.

Para cumprir horários.

Para agradar.

Para sobreviver.

Pouco a pouco vamos perdendo contacto com aquilo que Winnicott chamava Verdadeiro Self.

Passamos a viver sobretudo através do Falso Self.

Funcionamos.

Mas deixamos de sentir.

Cumprimos.

Mas deixamos de existir plenamente.

É então que nasce uma das formas mais silenciosas de sofrimento.

A saudade de nós próprios.

É curioso.

Só conseguimos sentir verdadeiramente saudades dos outros quando conservamos uma relação viva connosco.

Porque o primeiro objecto interno que precisamos de reencontrar somos nós mesmos.

Quando recuperamos essa ligação interior, também recuperamos a capacidade de amar.

De cuidar.

De recordar.

De criar.

O bom objecto interno torna-se novamente disponível.

E, a partir dele, voltamos a estabelecer relações mais autênticas com o mundo.

Talvez seja por isso que a saudade seja muito mais do que tristeza.

Ela é um testemunho.

Diz-nos que existiu amor.

Que existiu vínculo.

Que existiu presença.

A saudade não é inimiga da felicidade.

É muitas vezes a sua continuação.

Só sente saudades quem verdadeiramente viveu.

Quem amou.

Quem construiu história.

O problema nunca é sentir saudades.

O problema é deixar de viver para as alimentar.

A saudade deve ser uma ponte, nunca uma morada.

Deve ensinar-nos a cuidar melhor do presente.

A telefonar hoje.

A abraçar hoje.

A pedir desculpa hoje.

A usar a roupa bonita hoje.

A abrir a garrafa especial hoje.

A tirar a loiça do armário hoje.

Porque talvez não exista uma ocasião mais especial do que esta.

A vida passa com uma rapidez quase cruel.

Ainda agora era Natal.

Daqui a pouco será novamente Páscoa.

Os anos sucedem-se como páginas levadas pelo vento.

E talvez um dia descubramos que a maior parte das saudades que hoje carregamos nasceram precisamente porque não percebemos, enquanto vivíamos, a delicadeza daqueles instantes.

No fundo, a saudade é uma das formas mais belas de o amor continuar a existir quando a presença já não é possível.

Ela recorda-nos que a ausência nunca é absoluta. Aquilo que verdadeiramente nos transformou permanece inscrito na nossa vida psíquica, como um bom objecto interno que nos acompanha, nos sustenta e nos ajuda a continuar. O verdadeiro trabalho do luto não consiste em apagar o passado, mas em integrá-lo de tal forma que possamos seguir em frente sem deixar de amar.

Talvez seja essa a maior lição da saudade: não viver voltados para trás, mas caminhar para diante levando connosco tudo aquilo que o amor, a memória e o tempo fizeram de nós. Porque, no fim, não somos apenas feitos das pessoas que ainda permanecem ao nosso lado; somos também feitos de todas aquelas que, mesmo ausentes, continuam silenciosamente a habitar o nosso coração.